Carro de bois

Transportando o passado para o presente

Carros de bois  

             O carro atrás dos bois.

 

            Os carros puxados por bois existem há mais de 5.000 anos. Chineses, Egípcios, Fenícios, Assírios, Hebreus, Gregos e Romanos o utilizaram como transporte na guerra e na paz. Quando os romanos entraram na península Ibérica em 218 A.C. levaram para lá também o Plaustrum, um carro de bois típico das regiões itálicas e adotado pelos lavradores italianos no transporte de suas colheitas. Nos séculos seguintes ele mudou muito pouco e foi um descendente do Plaustrum que os portugueses trouxeram para o Brasil colônia, que se tornou o primeiro veículo a rodar nas terras brasileiras e um dos mais importantes elementos da civilização que aqui se construiu entre o século XVI e início do XX.

Carros de bois

            O carro de bois foi fundamental no transporte da colheita de cana para o funcionamento dos engenhos nas várias províncias onde o Brasil começava a existir e há registros históricos de sua importância em momentos históricos como a revolução farroupilha e a guerra do Paraguai e na construção de cidades e vilas, incluindo a primeira capital, Salvador, transportando madeira e material de construção. Sua relevância no transporte é equivalente à das tropas de mulas, que levavam mercadorias aos lugares mais distantes, ultrapassando as serras do Mar e da Mantiqueira, por onde um carro com rodas não conseguiria passar. Não é sem motivo que ele figura como testemunha de destaque no quadro em que Pedro Américo retrata a independência do Brasil.

Carro de bois

Rústico, resistente, construído com madeiras duráveis como o jacarandá, pau d’árco, sucupira, baraúna, jatobá, que variavam conforme a região em que era utilizado, o carro de bois não precisava de estradas muito preparadas e podia ser puxado por várias duplas de bois ( podiam chegar a doze duplas ), conhecidas como parelhas, o que permitia enfrentar vários tipos de terreno e transportar uma enorme variedade de cargas.

 

Carros de bois

           

       O carro que canta 

            Um carro de bois é composto, basicamente, de duas partes. A mesa, onde vai a carga,  ( que por sua vez é composta das chedas e do cabeçalho ) e o conjunto de rodas e eixo.

Carros de bois

            O som característico que faz um carro de bois, um gemido doce e manhoso, fez parte da vida e alimentou o universo das estórias, poesias e cantigas do povo do campo na maioria dos estados brasileiros. É um som intencional, causado pelo atrito do eixo, feito de madeira, com os cocões e chumaços ( tipo de mancais ) também de madeira, fixados na mesa do carro e que a apóiam no eixo. Segundo carreiros e construtores antigos, esse cantar pode ser grave ou agudo, dependendo da madeira utilizada em cada uma das peças. Nos carros de bois mais antigos, o eixo e as rodas formam um conjunto que gira solidário. As rodas são inteiriças e costumavam ser feitas de uma peça única, serrada de enormes troncos de arvore. À medida em que o diâmetro das árvores diminuía, as rodas passaram as ser feitas em partes, unidas entre si por pinos e travas e normalmente cintadas por um anel de ferro que evitava o desgaste da roda e também ajudava na união das partes.

            Para cantar, o carro recém fabricado passava por um processo de amaciamento em que uma mistura de areia e óleo de mamona era aplicada entre os chumaços, cocões e o eixo para polir e ajustar o conjunto. Quando tudo estava perfeitamente encaixado, o óleo de mamona puro ou misturado com gordura animal, continuava a ser aplicado para lubrificar o conjunto, diminuindo ( e não impedindo ) o atrito entre as peças de madeira, de modo que o canto do carro pudesse ser produzido e ouvido à distancia.

            Existe a crença de que esse som emitido enquanto o carro leva a carga, anima os bois e cadencia seus passos. Para os antigos carreiros e donos de carros, o canto é o maior motivo de orgulho.

O carro que não canta; o carro mudo

Carro de bois 

            Modernidade e poesia nem sempre andaram juntos e no mesmo passo sonoro do carro de bois.

            A partir do final do século XIX adaptações e variações que aconteceram com os carros de bois, dependendo da situação geográfica e das necessidades diferentes em cada estado brasileiro, acabaram por produzir carros mais leves e rápidos mas que não cantavam mais. Normalmente conhecidos como carretas, esse novos carros usavam um eixo (que podia ser de madeira ou ferro) fixo à mesa e que não mais girava com as rodas. Essas por sua vez, se tornaram radiais ( como as de uma motocicleta )  para diminuir o peso e ligadas ao eixo fixo pelos raios e pelo miolo, normalmente chamado de massa ou cubo.  Sem o eixo que gira, os cocões e chumaços, os carros novos emudeceram.

 

            O homem adiante dos bois 

            Ontem e hoje, quem conduz o carro de bois é o carreiro. Esse homem, cujo ofício é aprendido na prática, começa como um ajudante, conhecido em cada região do Brasil por um nome diferente; boeiro, chamador de bois, guia. Com o tempo e com a velhice do carreiro, o ajudante pode assumir sua função. O carreiro ou carreteiro é o condutor propriamente dito. É ele quem escolhe, batiza e treina os bois para fazer parelhas, colocando os mais novos atrás dos mais velhos e já treinados. Tem uma linguagem própria para se comunicar com os bois e em geral tem muito carinho por eles.  Os carreiros antigos eram empregados de um fazendeiro ou, eles mesmos, dono de um roçado.  Ao ajudante cabem as tarefas de carregar e descarregar o carro, abrir porteiras, ajudar na manutenção do carro e auxílio em algumas manobras que o preparam para a função de carreiro.

 

 

Os bois adiante do carro

 Carros de bois

O gado bovino foi trazido para o Brasil já no início da colonização.

Não existe uma raça mais adequada ao uso nos carros mas há registros de preferências pela raça caracu.

O boi de carro ou boi de tiro pode ser treinado desde bezerro em carros pequenos, construídos para esse fim. Os adultos que nunca foram atrelados à canga, começam sendo colocados atrás de parelhas de bois treinados ou em dispositivos giratórios, para se acostumarem com o peso da canga, e como os comandos do carreiro e manobras.

A dupla de bois que vai na frente de do carro é chamada de parelha de coice.

 

Carros, bois, homens de hoje e a memória das lidas do passado

             Um carro de bois anda quase na mesma velocidade de um homem a pé. Usá-lo como meio de transporte só é viável em curtas distancias e em lugares onde automóveis e tratores não conseguem chegar. Alem disso ele precisa ser feito com madeiras nobres, difíceis de se encontrar e proibidas de serem cortadas. Mesmo assim fazem parte de uma tradição tão forte que enchem de orgulho velhos carreiros e construtores. São eles que ainda encontram e criam motivos e ocasiões para vê-los rodar e ouvi-los cantar.

Carro de bois

Caçapava, no trecho paulista do Vale do rio Paraíba, é onde funcionou oficina dos irmãos Tosetto.  Até o fim da década de 80 eles fabricavam carros e carretas de boi e tinham muitas encomendas. Hoje, João Batista Tosetto, 83 anos, o único dos irmãos ainda vivo, mantém a oficina funcionando. Aos poucos foi recusando o serviço grande da construção e reforma dos carros e agora faz trabalhos de marcenaria e reparos em móveis como uma maneira de se manter ativo. Construindo carros de bois o Sr. João Batista e todos seus irmãos criaram e educaram seus filhos, dando a eles a chance de estudar e de se engajar em outras profissões mais promissoras, o que infelizmente contribuiu para o ocaso da oficina. Também em Caçapava, resiste no ofício o Sr. Afonso Casari. Descendente de italianos, como os Tosetto, “seu” Afonso nasceu em Caçapava, apesar do sotaque e da aparência européia. Cresceu vendo e se encantando com a passagem dos carros de bois pelo sítio de seu pai e neles se inspirou para fazer seus brinquedos, começo de sua atividade. Com 77 anos, casado, mas sem filhos, construiu sua casa e o pequeno rancho onde trabalha às custas de seu trabalho. Muitas vezes fez suas próprias ferramentas, incluindo um torno para fabricar o cubo das rodas, feito com a caixa de marchas de um chevrolet 1938. “Se faltar ferramenta, eu fabrico. Quando comecei trabalhava com serrote e arco de pua. Cheguei a serrar uma viga de 3,5 metros no serrote e a fazer um cubo de roda na mão, sem torno. Não tinha solda e as peças de metal eram unidas por caldeamento, esquentando e batendo uma na outra.  Quando a gente é novo a gente tem coragem. 

Muitos dos carros que passaram pelas mãos dos Tosetto e de “seu”  Afonso tem seu momento de destaque na festa de São João Batista, padroeiro da cidade. Uma procissão com a imagem do santo celebra a participação dos carros, que no início da década de 30 traziam prendas para serem leiloadas na festa e arrecadar fundos para a reforma da igreja. Todos anos, carreiros das redondezas se reúnem e com o auxílio de senhoras voluntárias, decoram seus carros para levar o andor de São João Batista até o pátio onde acontece a festa. Homens como Vicente, Izidro, e Tucá, que são carreiros desde meninos e como Manoel, que veio das Alagoas para tentar a vida em Caçapava e que da terra natal trouxe seu carro de bois, depois de ver que também em Caçapava havia dessas coisas. Todos eles participam com fé e orgulho da procissão em homenagem ao santo que batizou Jesus.

Carros de Bois

Subindo a serra da Mantiqueira, em São Bento do Sapucaí vive o Sr. Joaquim Pereira da Costa, ou simplesmente “seu” Quim que desde menino usava um facão para fazer pequenos carros, os amarrava nos gatos da casa e se divertia vendo-os subir pelas árvores puxando os carrinhos de madeira. Com mais de 80 anos, aprendeu a fazer carros de bois com um construtor chamado Sebastião Bento que vinha de Paraisópolis para trabalhar para o pai. Diz que foi carreiro duas vezes porque além de fazer, usava os carros para transportar sua produção de arroz. Criou oito filhos com sua pequena roça e com a construção de carros de bois e ainda conserva dois carros que fabricou, como recordação desse tempo. Fala com orgulho do reflorestamento que faz há anos para compensar a madeira que cortou  para fazer os carros e diz que já plantou muito mais árvores do que derrubou. “Replantei muito mais do que cortei, para pagar a natureza e hoje não tenho coragem de cortar madeira”. Seu trabalho hoje está se limitando a reformas de carros, usando a madeira que já possui ou a que vem de árvores mortas. “ Tenho uma cachaça por isso aqui. Eu faço os carros. Se vender, vendeu…

Carros de bois

Trindade é uma cidade a 26 km de Goiânia por uma rodovia chamada dos Romeiros. Na festa do Divino Pai Eterno, que acontece em Julho, centenas de carreiros vindos principalmente do estado de Goiás acampam na cidade à espera do dia da procissão de carros de bois, a maior do país, que celebra a devoção iniciada em 1840, quando um pequeno agricultor encontrou uma medalha da Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora e transformou sua casa num lugar de peregrinação para outros como ele. Entre os mais de 300 carreiros que desfilam  pela cidade há quem compre e mantenha um carro com as parelhas só para participar da festa. José Furtado Pacheco Sobrinho o José do Salú , é de Damolândia, cidade há cerca de 80 km de Trindade. Tem 69 anos, é neto de carreiros, que carreavam sua produção de arroz, feijão e batata para Anápolis, e traziam sal, querosene e arame. “Nasci num carro de bois e fico numa carro de bois até que os 4 amigos me levem”  . Há 50 anos vem com a família, e com vários outros carreiros para participar para a festa, numa viagem de três dias nos carros de bois. Nos pousos, as mulheres cuidam da janta e os homens se ocupam da moda de viola. “Venho por diversão e não pela devoção mas agradeço ao Pai Eterno por ter chegado e peço para poder voltar no ano que vem

Carros de bois

Conterrâneo de José do Salú, Geraldo José da Silva tem 84 anos e também enfrentou, com a família de 6 pessoas, os três dias de viagem para chegar na festa. Na sua cidade ele ainda carreia um pouco nas terras que seu pai comprou quando se mudou de Minas para Goiás em 1964, mas o uso mais importante do carro de bois é na procissão.

Até o padre que leva a imagem no carro chefe da procissão nasceu em Damolândia e descende de carreiros. Padre Benedito vem de Brasília, onde exerce seu ministério sacerdotal, para participar da festa e lembrar a tradição de seus avós de quem ele herdou a devoção desde menino.  Segundo Pe Benedito seus pais são romeiros remanescentes, pois a romaria de carro de bois pode ser dividida em dois períodos. Antes, quando o carro de boi era o único meio de transporte  disponível e levava o romeiro pra festa. Agora na “pós modernidade” é o romeiro que leva o carro para festa e desfile.

De importante ferramenta de construção de uma civilização o carro de bois passou a ser um objeto decorativo em procissões e desfiles. Esse novo papel não é entretanto um rebaixamento ou desqualificação. De fato é o reconhecimento de sua contribuição na história da colonização do país, cujos primeiros capítulos ele ajudou a escrever com os sulcos paralelos de suas rodas, traçados no chão do Brasil colônia e império.

 

Completando 1:   A importância do carro de bois teve seu apelo romântico na obra de vários artistas. Pintores e escultores do barro e da madeira fizeram dele objeto ou elemento de sua obra como no artesanato do Vale do Paraíba ou na pintura do sergipano Jordão de Oliveira, exposta no hall de entrada do palácio Olímpio Campos em Aracajú, que foi sede do governo de Sergipe até 1995.

Aracajú - SE

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Completando  2: Independentemente do tipo de carro de bois e consequentemente, do tipo de rodas que usam, elas precisam ser ferradas ou argoladas, isto é, receber um anel de metal que as mantém ajustadas e que proteja a madeira do desgaste causado pelo contato com o solo.

Há duas formas de se fazer isso. O anel pode ser feito em secções que são pregadas na roda, ou inteiriço, soldado nas pontas e dilatado no fogo para que seu diâmetro fique maior que o da roda. Ele é então colocado em brasa na roda e esfriado rapidamente para, ao se contrair, manter unidos todos os elementos da roda. Esse processo tem que ser muito preciso pois se o anel for encaixado errado é impossível tirá-lo sem destruir a roda.

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