O servo sofredor – Sofrimento e sacrifício como forma de redenção.

Transformado na versão Católico-Romana, esse Cristianismo se tornou a religião hegemônica de toda a Europa durante a maior parte da Idade Média e cresceu baseada no poder e na autoridade do clero e das suas relações com o poder secular.

O Cristianismo surgiu no primeiro século de nossa era como um conjunto de pessoas que se propunham a viver o judaísmo de uma forma diferente, baseada na solidariedade e sobretudo no perdão, cujo símbolo máximo foi o sacrifício voluntário de seu líder que se tornou “o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, numa alusão aos sacrifícios de reconciliação com Deus, realizados no templo de Jerusalém.

O Catolicismo se expandiu e estruturou sua prática com base nos Sacramentos que no início eram, principalmente, o Batismo, a Comunhão e a Confissão. Todos com a função de purificar e santificar quem os recebia. A Confissão, também chamada de Penitência tem, entre suas várias origens a peregrinação que monges irlandeses, na baixa idade média, faziam como forma de reparação dos pecados. Eles saiam sem destino, contando apenas com a providência divina e com a solidariedade das pessoas, para ter o que comer e beber e onde dormir, se sujeitando à fome e ao frio e, portanto, ao sofrimento.

O clero retinha (e ainda retém) a posse desses sacramentos e o poder de determinar que os podia receber. Consequentemente era quem determinava quem podia ser perdoado de suas faltas.

No final do século XIII a Igreja era uma instituição poderosa, inclusive politicamente. É quando o Concílio de Latrão define o sistema de sete sacramentos e quando surgem as congregações de frades mendicantes, os Franciscanos e os Dominicanos, que serão muito rapidamente absorvidas pela hierarquia da Igreja, numa estratégia de manutenção do controle sobre tudo aquilo que dizia respeito à religião. Esse controle se tornará o principal objetivo da contrarreforma, também chamada de romanização, que chegará ao Brasil na medida em que a colonização avançava, fundamentada no plantio da cana de açúcar, que se espalhou com força na região nordeste.

O nordeste brasileiro foi o grande polo da produção de cana-de-açúcar, o “ouro verde”, escolhido como o recurso que viabilizaria o início da colonização. Entretanto, os grandes latifúndios e a produção agrícola (fosse ela de cana-de-açúcar ou posteriormente de algodão), voltada para a exportação, impediam uma agricultura de subsistência, o que fazia com que os pequenos agricultores se tornassem totalmente dependentes dos latifundiários, que lhes concediam onde morar e o que comer. Entre os séculos XVIII e XIX esse latifundiário terá o sugestivo nome de “coronel”.

Ibiapina será o iniciador de um movimento de protagonismo laico que terá sequência no Pe. Cícero e que também foi o modelo das comunidades seguidoras de beatos como Antonio Conselheiro e José Lourenço (Canudos e Caldeirão). Como consequência, enfrentará a resistência do processo de romanização da Igreja que, apesar de ter surgido no Concílio de Trento (1545-1563) só vai chegar por aqui nos meados do século XVIII.

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Pe. Ibiapina

 

Figura emblemática, Pe. Ibiapina foi ordenado sacerdote aos 47 anos, depois de uma carreira como advogado, juiz, chefe de polícia e deputado federal pelo Ceará. Dedicou-se a uma vida de ajuda ao próximo e de oração e se tornou um padre missionário, responsável pela organização de mutirões populares  para a construção de açudes, cemitérios, escolas e as Casas de Caridade, algumas das quais se tornarão hospitais, não só no Ceará mas também na Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, e que suprirão as necessidades dos pobres, não atendidas pelo Estado. Essa instituições serão administradas por leigas e leigos convocados por Ibiapina, e que se dedicarão exclusivamente a essa funções.

O surgimento dos Penitentes de Barbalha é, de fato, anterior à chegada de Ibiapina, e pode ter sido consequência de uma prática que já existia na Europa entre os século XIII e XV. Todavia é possível que tenha sido incentivado pelas ações missionárias que Ibiapina realizou no chamado Cariri novo (Missão Velha, Crato, Barbalha, Milagres, Porteira) no ano de 1868.

 Um manual de penitência – A Missão Abreviada

Na segunda metade do século XIX, um livro publicado em Portugal pelo padre Manoel José Gonçalves Couto (1819-1897) tornou-se um manual da vida missionária no Ceará e a base de uma doutrina que fará surgir, entre os leigos, os grupos de Penitentes, cuja prática de autoflagelação era comum até meados do século passado. A Missão Abreviada, como era intitulado, tinha, já na primeira página, um resumo do seu objetivo: “Para despertar os descuidados, converter os pecadores, e sustentar os frutos das missões”. O texto da Missão Abreviada é totalmente comprometido com a busca da santidade pelo sacrifício e penitência.

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Capa do livro Missão Abreviada e primeira página

Portanto se te queres salvar, peccador, deixa já o peccado e cuida em fazer rigorosa penitencia; eu digo rigorosa penitencia, sobre o que deves considerar no que diz Santo Ignacio: «A sentença está dada contra ti, peccador; na verdade estás condemnado ao inferno, porque cahiste no peccado; e por mais que tenhas feito, não sabes se já está revogada a tua sentença de condemnação eterna; estes dias que o Senhor te concede, são dias de salvação; não é tempo de rir, nem de zombar; não é tempo de prazeres ou vaidades; ó sim tempo de chorar e de gemer; é tempo de clamar a Deos perdão c misericórdia; é tempo de fazer penitencia, fugindo aos louvores, aos divertimentos e aos regalos, e procurando desprezos, abatimentos e mortificações; ainda que já tenhas feito vinte ou trinta annos de penitencia (diz o Santo) não descanses, não cesses, faz ainda mais penitencia, porque não sabes se já estás perdoado… (Missão Abreviada – Sec. XIX – p. 102)

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Página do livro Missão Abreviada

Para os leitores da Missão Abreviada, o perdão não vem apenas pela graça, consequência do arrependimento, mas de um processo de sofrimento que, em resumo, é o castigo pelas faltas, que precisa ser ministrado antes do perdão.

Num cenário onde o povo já era sofredor em consequência da seca frequente e da falta de recursos, a autoflagelação pode ter aparecido como uma maneira de se destacar nesse sofrimento.

O caminho asfaltado dos Penitentes de hoje.

Festa de Santo Antonio

Festa de Santo Antonio – Grupo de Penitentes – Barbalha – CE

 Os Penitentes e as Incelências (grupo feminino) de Barbalha entendem como missão a visita aos cemitérios e aos cruzeiros nas beiras de estradas, especialmente na Páscoa e no dia de finados. Fazem também as exéquias de alguns falecidos, sempre rezando o terço e cantando os Benditos, cujas letras trazem adaptações das histórias das escrituras, da vida dos santos misturadas com a dos falecidos (nas exéquias) e com tradições e parábolas populares e cuja memorização é parte do orgulho dos mestres, conhecidos como Decuriões.

As Incelências, e é esse o nome com que fazem questão de serem chamadas, são em geral esposas ou parentes dos Penitentes.

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Semana Santa em Barbalha – CE – Grupo de Incelenças

Há 3 grupos de Penitentes em Barbalha. Todos vestem roupas pretas, mas há alguns grupos de outras cidades que usam o vermelho e o azul escuro. Todos os componentes, exceto o Decurião têm o rosto coberto por um véu. A explicação para isso é que assim o Penitente não pode ser reconhecido se tiver uma conduta não exemplar, que é indispensável para que ele participe do grupo. A despeito de professarem uma fé distante do clero, os penitentes não admitem, por exemplo, homens que vivem amasiados. Assim, apesar de prescindirem do contato frequente com um padre, eles respeitam e desejam os sacramentos.  Entretanto, o uso do véu cobrindo o rosto não pretende apenas prevenir que um membro do grupo seja acusado de ser pecador, mas também evitar que aquele que acusa faça um julgamento e que por isso, consequentemente, também peque.

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Semana Santa em Varzea Alegrea – CE – Grupo de Penitentesdo Riachinho

A autoflagelação, prática comum há cerca de 20 anos e exclusiva dos Penitentes, não é mais realizada, ou pelo menos é isso que os membros com quem conversei dizem publicamente. Mesmo assim, muitos ainda carregam consigo a “disciplina”, conjunto de lâminas cortantes usadas para a auto-flagelação, por ser ela uma parte de sua indumentária tradicional.

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Semana Santa em Barbalha – CE – Grupo de Penitentes da Santa Missão – Disciplina: Conjunto de lâminas que era usado na auto-flagelação

Em alguns de seus Benditos, a dor da disciplina ainda é lembrada:

Ai Jesus!                                                                                                                                                   Que grande dor                                                                                                                                                A dor da disciplina que trespassou                                                                                           Cortando a disciplina, o corpo do Penitente O povo diz que não dói, O nosso corpo é que sente

Comentários finais

Estado que é frequentemente vítima de secas infernais, teve campos de concentração, sofreu com as consequências do cangaço, do coronelismo e foi colonizado por missionários que incentivavam o pensamento conformista de que o sofrimento era a vontade de Deus.

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Semana Santa em Barbalha – CE – Grupo de Penitentes da Santa Missão e da Cruz, em peregrinação, visitando cemitério, casas e cruzeiros

Todavia também gerou ícones de uma vigorosa cultura de resistência, especialmente no século XIX.  Pe. Ibiapina, Pe. Cícero, Antonio Conselheiro, Zé Lourenço, foram nomes de gente que se dispôs a enfrentar o sofrimento e a usa-lo como alimento para sonhar com outra realidade, pautada na solidariedade.

Penitentes

Semana Santa em Barbalha – CE – Grupo de Penitentes da Santa Missão e da Cruz, em peregrinação, visitando cemitério, casas e cruzeiros

Os Penitentes são fruto dessa forma de entender a vida. Seu propósito não é uma salvação individual mas uma mortificação em prol da humanidade, seguindo o modelo do Cristo, que morreu por ela.

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Semana Santa em Barbalha – CE – Grupo de Penitentes da Santa Missão e da Cruz, visitando cemitério

Partem de uma concepção de que entre o pecado e o perdão precisa haver uma penitência, um castigo, e houve épocas que levavam isso ao extremo. A rigor, isso continua sendo parte da pregação da Igreja Católica da qual os Penitentes se orgulham de pertencer à sua maneira. Entre o arrependimento e o perdão sempre houve as orações de penitência.