Sineiros

 

Sino vem do latim, signum que também é a origem da palavra sinal. Sino é portanto  um sinal sonoro, assim como o farol é um sinal visual.

            Sua história está associada à história do bronze e por sua vez à descoberta do cobre, já usado no oriente médio 5.000 anos antes de Cristo. Mas o cobre é um metal muito mole para ser utilizado em ferramentas e armas. Entre 4000 e 3000 anos AC, a metalurgia vai se sofisticando e surge a liga de cobre e arsênio que, por ser muito venenoso, logo foi abandonado, ao mesmo tempo em que se descobria que a adição de 20 a 25 %  de estanho ao cobre o tornava muito mais duro e resistente. Nascia o bronze e com ele a possibilidade de fundição de uma enorme variedade de objetos tais como vasos, espadas, escudos, machados, estátuas, trombetas e…  sinos.

            Sinos se tornaram uma peça especialmente importante para as religiões.

            Na cultura budista, há milhares de anos, o som do bronze com várias formas também anuncia, além do  culto, etapas e fatos diferentes da vida da comunidade. Uma de suas utilizações mais importantes é na virada do ano novo, quando um grande sino é tocado 108 vezes. Esse numero significa os obstáculos que o ser humano tem que superar para atingir a iluminação. A dispersão do som é comparada à propagação do Dharma.

Sinos

O cristianismo, especialmente o católico, adotou o sino com um órgão vital na arquitetura de suas igrejas. Registros antigos dessa utilização tem cerca de 1.600 anos, numa região chamada Campânia, da diocese italiana de Nápoles. Daí se explica a palavra campana ( campainha ) como sinônimo de sino e, consequentemente, campanário como o  lugar da igreja onde ele é instalado. Vem daí também o nome da ciência e da técnica de se fundir sinos:  A campanologia, que teve na Itália um enorme desenvolvimento.

Sineiros

            O uso dos sinos já foi a forma mais eficiente de comunicação com a comunidade. Toques específicos anunciavam desde a chegada do bispo até o falecimento de alguém. Essa finalidade anunciadora deu aos sinos, na Igreja Católica, um caráter sagrado. Por isso, até hoje, eles devem ser abençoados com água benta e incenso antes de serem instalados na torre. Esse ritual, conhecido como batismo dos sinos, tem seu procedimento regulamentado no Ritual Romano de Bênçãos, que normaliza a sagração de objetos e lugares sagrados, além da benção a pessoas.

Anunciar com o som de um sino se tornou assim um ofício importante e especializado. Hoje, mesmo com a tecnologia que permite a automação dos campanários, a profissão dos que fazem soar os bronzes nas torres das igrejas, chamados sineiros, foi considerada Patrimônio Imaterial pelo IPHAN e tombada no fim de 2009. Foi em São João Del Rei, Minas Gerais, que em 2001 começou o processo de tombamento, graças à iniciativa dos próprios sineiros e dos moradores, apoiada pela Secretaria de Cultura de estado de Minas. A pesquisa do IPHAN não encontrou nada escrito sobre os toques dos sinos, e concluiu que o saber tocar sinos está na habilidade e na memória dos sineiros de Minas Gerais e estendeu o tombamento às cidades de Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas do Campo, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes, porque nessas cidades o toque dos sinos faz parte da rotina diária, a ponto dos moradores organizarem sua vida pelo toque dos bronzes. No parecer que confirma o tombamento, o IPHAN fez questão de ressaltar que os habitantes dessas cidades se reconhecem e se distinguem dos de outras porque atribuem um significado particular ao toque dos sinos, conhecem a variedade dos toques e o som diferenciado de cada um daqueles bronzes e concluiu que tudo isso é parte importante da identidade e da diversidade cultural das cidades pesquisadas. Nelas ainda se conserva uma série de toques que existiram em inúmeras vilas e cidades do Brasil e das colônias portuguesas. São João del-Rei é referencia sobre o tema. Tem mais de 50 tocadores de sinos, incluindo os aprendizes, que conhecem mais de 40 toques, dentre repiques e dobres, cada um com seu nome, para anunciar eventos litúrgicos e fatos importantes da vida da cidade. Os sineiros são-joanenses são reconhecidos como profissionais, tem carteira assinada e salário pago pelas irmandades, como nos tempos antigos. A pesquisa do IPHAN também constatou o papel decisivo que as irmandades e associações religiosas tiveram e tem na manutenção do ofício de sineiro. Nas cidades como São João del-Rei, onde as irmandades se mantêm atuantes, a prática sineira sobreviveu com toda força. Já em Mariana, sede do arcebispado, as funções das irmandades foram assumidas pelo clero, o que parece ter sido a causa da interrupção do aprendizado do ofício. O IPHAN constatou que há pouco envolvimento dos padres com os sineiros e com o toque dos sinos.

Sineiros

Quando balança corretamente, o tempo que o sino leva para ir de um lado ao outro é o suficiente para que o som de cada badalada se disperse. Se tocado muito rápido, cada nova pancada do badalo cria novas vibrações antes que as anteriores se dispersem totalmente e isso prejudica o som que é ouvido. Em geral, quando um sino é mal tocado, é porque ele está balançando depressa demais. Além disso, a não ser que a igreja seja muito pequena, ela tem sempre mais de um sino. Os conjuntos de sinos mais usados são grupos de pelo menos três, chegando a 5 e no máximo 7 sinos com notas harmoniosas e feitos para serem tocados sucessiva ou simultaneamente por alguém muito bem preparado para isso. A variação de toques desses conjuntos é que permite marcar com singularidade qualquer evento a ser anunciado. Não é à toa que o ofício de tocar sinos virou patrimônio.

            Como para que haja tocadores de sino é preciso que haja sinos, a campanologia está associada a um patrimônio. Fundir sinos é uma ciência e uma arte que mudou pouco através de séculos de busca pelo som afinado do bronze. Como em qualquer fundição, usa modelos e caixas de fundição preenchidas com terra ou cavadas no chão e onde o metal fundido é derramado. É um exercício de paciência e pericia. Cada sino é feito para tocar uma nota principal, especificada na encomenda.

Fundição de sinos em bronze

            O sino já deve sair da fundição com a afinação correta. Corrigir essa afinação com processos mecânicos de desbaste, raramente da certo.

            A chave para um sino perfeito tem um nome bastante curioso: a costela do sino. Ela define a variação da espessura das paredes e as proporções entre a altura a boca e a cabeça do sino. A costela é um tipo de molde que define o perfil do sino e é criada empiricamente. Essa coleção de moldes é o grande tesouro passado de pai para filho numa família de fundidores. Ela fará toda a diferença no som que os sinos vão emitir.

Fundição de Sinos

            No fim do século XIII ficou estabelecido o critério de que todo o sino tem que ter um som dominante e três sons complementares. O primeiro, chamado de terça  ( grave ) , o segundo, chamado de quinta ( aguda ) e finalmente o terceiro que é a oitava do tom dominante. O valor do sino depende da harmonia entre seu som principal e os complementares.

Fundição de Sinos

            Sinos tem identidade. Além do som que ele emite é comum os fundidores identificarem cada um com sua marca, a data da fundição o nome da igreja onde vai ser instalado e algumas inscrições que, nos sinos mais antigos, podem ser uma valiosa fonte de informação histórica. Os fundidores também decoram cada peça com frisos e desenhos artísticos. Tudo isso é feito pelo antigo processo de cera perdida. As letras das inscrições e os desenhos são modelados em cera de abelha e coladas ao modelo de fundição. Durante as etapas do processo o calor faz a cera derreter e escoar, deixando então no molde um espaço vazio que o metal fundido ocupa, assumindo sua forma. Nos tempos modernos de internet além das inscrições tradicionais também é possível se encontrar nos sinos o tradicional www.com, com o nome do fabricante. A inscrição de orações, datas e figuras é uma prática que aparece também, com significados semelhantes, nos sinos budistas.

            Tirar o sino fundido da caixa nada tem de delicado. O molde, feito de tijolos, arame, estopa,esterco e revestido de barro, é destruído com marretadas. Dos escombros sai o sino, sobrevivente e vitorioso. Mas ele ainda não está pronto… depois da limpeza e acabamento para remoção das rebarbas ele vai receber seu complementos: o cabeçal e o badalo.

Fundição de Sinos

O cabeçal, fixa o eixo e o badalo e também serve de contrapeso para regular o balanço do sino. Em geral é de madeira mas também pode ser feito de ferro.

O badalo é uma peça aparentemente simples mas fundamental para o bom desempenho do sino. Deve ser feito de um metal mais mole para que se desgaste, enquanto o sino permanece intacto. Sua montagem varia de acordo com o tamanho do sino e com o estilo do fabricante.  Em sinos pequenos é comum que no badalo seja amarrada uma corda para fazê-lo bater no sino. Nos sinos grandes, isso é quase uma heresia. O badalo deve se mover mais lentamente que o sino e nele bater livremente, na parte mais grossa da sua boca. O jeito de se fazer isso é fabricar o badalo mais comprido que o sino. Esse comprimento não é aleatório e aqui entra também a experiência do fundidor.  Quando os dois balançam, o sino sobe mais depressa e o badalo se choca com ele no momento em que está na posição horizontal. Assim o som se espalha para fora do campanário.

Sinos não são feitos para tocar musicas. São feitos para anunciar. O conjunto de  peças, semelhantes aos sinos, que toca musicas é chamado de carrilhão, mas sua montagem é totalmente diferente da que é feita nos campanários

Os bronzes do carrilhão são fixos, não balançam. Seu som não é obtido pelo badalo e sim por um martelo e que é acionado por fios e teclados. O carrilhão é um instrumento musical cuja função não é a mesma dos sinos nos campanários. Por isso, normalmente não se abençoa um carrilhão do mesmo modo que se faz com o sino.

No Brasil ainda existem fundições de sinos. Duas na cidade de São Paulo uma em Uberaba – MG e outra na própria São João del-Rei – MG. As três primeiras estão direta ou indiretamente ligadas a uma origem italiana.

A Fundição Artística Paulistana, conhecida como sinos Angeli iniciou sua tradição de fazer sinos em meados do século XVIII na Itália. Em 1898, Angelo Angeli veio para o Brasil e se estabeleceu em São Paulo. Fundia sinos e também estátuas. Hoje, sob a liderança de Flávio Durso Angeli e Marcos Durso Angeli, a empresa segue pela quarta geração, a mesma tradição na arte de fazer sinos.

Crespi é o sobrenome de outra família italiana relacionada ao antigo ofício de fundir sinos. Originária da cidade de Crema, se estabeleceu em São Paulo em 1959 com a chegada do mestre sineiro Giácomo Crespi. Todavia há registros da atividade da família na Itália desde 1498 e os descendentes contam estórias de que até o próprio Napoleão Bonaparte, ao passar por Crema, parou sua carruagem para ouvir o toque dos sinos fabricados pelos Crespi.

Em Uberaba a Fundição Artística Sinos Uberaba também utiliza a técnica desenvolvida por italianos desde o fim do século XV. José Donizetti da Silva foi funcionário da família Crespi e aprendeu com o velho Giácono a arte de fundir o bronze. Depois da morte do mestre, há cerca de 30 anos, José Donizetti voltou para sua terra natal e lá iniciou sua própria fundição. Hoje divide a administração da empresa com seu filho José William.

A estória da fundição do goiano José Edivaldo Ribeiro da Silva é um pouco diferente. Ele foi funcionário de grandes fundições de aço, bronze e alumínio. Em 1978 montou sua própria fundição em São João del-Rei, para fazer pequenas peças artesanais. Há 20 anos começou a fundir sinos. Como não tem a tradição das famílias italianas conseguiu autorização para tirar as medidas dos antigos sinos imperiais que estavam nas igrejas da cidade e aproveitou o conhecimento e tecnologia das fundições onde trabalhou para desenvolver, junto com os dois filhos Clayton e Carlo, sua arte sineira. Edivaldo usa uma areia especial e modelos permanentes, feitos de alumínio, que substituem os feitos de tijolo, barro, estopa e esterco, usados pelos fabricantes mais tradicionais. Assim ele consegue diminuir o tempo de moldagem e desmoldagem dos sinos e manter sua pequena produção. O maior sino que ele fez pesava 500 kg e foi para uma igreja em Campinas – SP, mas o mesmo cliente já encomendou um segundo, que irá para uma capela no sul da França.

Essas empresas são indiretamente responsáveis pelo que o IPHAN considerou como patrimônio imaterial do Brasil, recomendando a inscrição do Toque dos Sinos como Forma de Expressão e a do Ofício de Sineiro no livro de registro dos Saberes. Enquanto elas continuarem fabricando e recuperando sinos, o anuncio das boas e más notícias feito pelos bronzes das nossas torres, tem chances de ser preservado.

Fundição de sinos em bronze

 

Completando: Os toques dos sinos têm finalidade litúrgica, social e até de defesa civil. Os nomes dos toques, principalmente os repiques, foram criados pelos sineiros ainda no tempo colonial e preservados na tradição oral. Muitos deles são onomatopéicos, exprimindo o som ou ritmo que produzem. Os toques mais conhecidos são Ângelus, A Senhora é Morta, Toque de Exéquias, Toque de Cinzas, Toque de Finados, Toque de Passos, Toque de Treva, Glória de Quinta-feira Santa, Toque da Ressurreição, Toques de Te Deuns, Toque das Rasouras e Procissões, Toques de Incêndio, Toques de Agonia, Toques Fúnebres, Toques Festivos, Toque de Parto, Toque chamada de sineiros, Toque chamada de sacristão, Toque de Posse de irmandade, Toque de Almas, Toque de Missas, Toque de Natal, Toque de Ano Novo, Toque das Chagas ou Morte do Senhor

 

Fontes:

Os Bronzes de Nossas Torres – Monsenhor Joaquim Nabuco – Editora Vozes  – 1964

http://portal.iphan.gov.br

www.campanologia.org

www.metalica.com.br