Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

Meu desejo de produzir um livro sobre as Festas de Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais começou quando notei as diferenças entre a festa de Minas Novas e a de Itaúna. À partir daí comecei a procurar explicações para as diferenças mas não as encontrei. Entretanto consegui informações sobre a festa de algumas cidades ou, particularmente, comunidades como a dos Jatobás e do Arturos  que me ajudaram a entender a organização das festas e a prestar atenção em detalhes para os quais eu nem sempre estava atento. Percebi que não vou conseguir explicar o por quê das diferenças entre as festas mas que posso documentá-las mostrando que essas diferenças existem. Entendi ainda que quase todas as manifestações de afro descendentes que acontecem no Brasil são resultados de dois fatores básicos: 

1 – Quem veio da África  –  que significa também, de onde veio 

2 – Para onde foram levados  –  que significa também, o que encontraram no lugar onde foram escravizados, em termos de cultura e manifestações religiosas já existentes.

Esses dois fatores fizeram com que em cada lugar do Brasil surgissem manifestações diferentes, muitas vezes com origens comuns e com o mesmo objetivo. Os escravos levados para Minas Gerais foram muito utilizados na extração de ouro e diamante. Por causa dessas riquezas, a presença fiscalizadora dos portugueses foi muito mais intensa naquele estado, o que talvez explique parcialmente a maior influência do cristianismo entre os escravos de Minas do que os levados para Pernambuco ou Bahia, para trabalhar na cana de açúcar.

  As festas de Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais costumam ser  chamadas de Reinado ou Congado. Em algumas regiões do estado os dois nomes são usados indistintamente, mas há lugares onde um nome se opõe ao outro. Tudo isso depende da visão e da informação dos envolvidos na festa sejam eles os capitães de ternos ou guardas, os padres e párocos da cidade e o povo que participa.

  O titulo do livro poderia ser tanto Congados de Minas como Reinados de Minas. Os dois causariam uma discussão, satisfariam a alguns e não a outros. Os Rosários de Minas me parece o titulo do consenso. Alem de ser o centro da festa em qualquer lugar de Minas ele remete à longa caminhada, equivalente às 150 Ave Marias ,  pela manutenção dessa tradição pelas comunidades de afro descendentes em todo o estado, às vezes apoiados, às vezes criticados e muitas vezes ignorados pelo clero e pela sociedade

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

O Rosário e a festa

Rezar Ave Marias foi a alternativa que monges analfabetos encontraram, nos primeiros séculos da Igreja, para substituir a leitura dos 150 Salmos, que eles não podiam ler. O uso de pedras para contar as Ave Marias dá uma pista da origem do Rosário também chamado de Saltério de Maria.

Por outro lado, Rosário vem de rosas e de uma prática, da idade media, de se coroar a imagem de Maria com uma tríplice coroa de rosas lembrando as alegrias, sofrimentos e glória que passou junto ao seu filho. Daí o Rosário ser originalmente composto de TRÊS TERÇOS, cada um com cinco conjuntos de 10 Ave Marias e que celebram os momentos ( mistérios ) gozosos, gloriosos e dolorosos da vida de Maria com Jesus.

A devoção à Nossa Senhora do Rosário foi muito divulgada na Europa por São Domingos de Gusmão e pela ordem de frades que ele fundou no século XIII, os Dominicanos. É de 1409 o registro da primeira Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, na Alemanha.

Os portugueses levaram o Cristianismo para a África e a colonização daquele continente incluiu a catequese e a conversão de africanos ao cristianismo. Muitos escravos trazidos para o Brasil e levados para outros países, já eram cristãos e podem já ter sido irmãos do Rosário na África.

No Brasil os jesuítas também contribuíram para a devoção e formação de irmandades de Nossa Senhora do Rosário entre os escravos, no início do século XVI.

A devoção, as irmandades e a festa em honra de Nossa Senhora do Rosário estão ligadas pela lenda da aparição da Imagem nas águas ( ou nas matas, dependendo da região ) resgatada pelos negros escravos de origem bantu, que tocaram para ela em seus tambores rústicos, feitos de troncos de árvores e do couro de animais, como eram na África. O Rito da festa tende assim a reproduzir ou recordar a lenda, seja na diferenciação do papel das guardas ou ternos nas procissões, como o Moçambique e o Congo, seja  através da simulação da retirada da imagem das águas de um rio pelos membros da Irmandade, mais comum nas festas do Vale do Jequitinhonha, em cidades próximas a um rio. Existem outras variações, como em Serro, onde a festa começa com o pedido feito pela Irmandade, na madrugada do primeiro dia, para entrar na capela do Rosário e retirar a imagem num andor.

Qualquer que seja a forma como a festa é estruturada no presente o que elas tem em comum é a origem do culto à imagem de Maria, sob o titulo de Nossa Senhora do Rosário que se difundiu entre os escravos de denominação bantu cristianizados durante o processo de cativeiro.

Ao contrario do cristianismo europeu, inflexível e radical, a religiosidade do africano bantu era naturalmente popular e aberta a novas informações e conhecimentos. Em comum, as duas religiões tinham a crença num Deus criador, na transcendência da vida e, no caso dos bantus, uma reverência profunda aos antepassados, que permitiu que identificassem nos santos católicos, especialmente os santos negros como São Benedito e Santa Efigênia, um ponto em comum no respeito à ancestralidade e à memória daqueles que um dia passaram por este mundo e depois foram para o outro…

Quando chegaram na África os portugueses, que vinham do mar, foram tratados como pessoas especiais. O mar, a água, simbolizavam para os bantus o espaço divisório entre mundo dos vivos e o dos mortos. O conhecido do desconhecido. Com os portugueses veio a religião e a aprovação papal para escravizar pessoas com o objetivo de batizá-las, torná-las cristãs e expandir o cristianismo pela África, dominada ao norte pelo Islamismo.

O reino do Congo foi um dos mais receptivos à nova ordem e à nova religião. A relação com os portugueses, embora nem sempre fosse cordial, teve, na média, um caráter amistoso que resultou num comércio fluente. O Congo e se tornou uma referência de nação bem sucedida e sua realeza se tornou mais respeitada. Daí os nomes Congado e Reis Congos, que aparecem nas festas do Rosário, independentemente da nação de onde tinham vindo os reis eleitos e os membros das guardas e das irmandades.

Palmital - MAS_0800.Flickr

No Brasil, a coroação de reis e rainhas era, para os negros, uma forma de manter viva as lembranças das origens africanas e para o senhores, um possível instrumento de controle e manutenção da ordem, na  medida em que dava aos escravos uma relativa liberdade por uns poucos dias que fossem.

Nos primeiros séculos da nova colônia o cristianismo era, em grande parte, sustentado pela religiosidade popular. A escassa presença do clero  permitiu que o povo estabelecesse sozinho sua forma de louvar, pedir e agradecer a Deus e aos santos. Essa sabedoria popular ( Folk Lore ) foi a grande força propulsora e mantenedora do Congado e de outras manifestações em vários lugares do Brasil. Organizados em Ordens Terceiras ou em Irmandades, os leigos assumiram o trabalho de construir suas igrejas e organizar as celebrações em honra dos seus santos padroeiros. As Ordens Terceiras eram, em geral, formadas pelos brancos, com um caráter mais devocional. As Irmandades eram fundadas, na maioria, por negros, escravos ou livres e tinham o objetivo de se organizar e refazer os laços de comunidade, rompidos com a escravidão e a consequentemente separação de famílias. Angariavam fundos para alforria, cuidados da saúde e sepultamento dos seus membros.

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

Ainda hoje a essência dessas festas é alimentada pelas Irmandades. Todavia, com o aumento da presença do clero, atuando muitas vezes como fiscalizador dos cultos e manifestações religiosas, o andamento das festas, especialmente as originadas pelos afrodescendentes, depende de uma delicada relação com bispos e vigários. Os escravos que elaboraram as festas de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, conhecidas como Congado, Congada ou Reinado, eram cristãos à sua maneira. Sua forma de homenagear esses santos se fazia com elementos dos festejos africanos de suas origens. Esse era o modo deles serem, ao mesmo tempo, cristãos e negros, mas isso nem sempre foi bem assimilado pelo clero, geralmente incapaz de sair de seus paradigmas seculares.  Com a liberdade religiosa ( ainda que relativa ) dos dias atuais, aumentou nas guardas ou ternos a participação de homens e mulheres que freqüentam também outras religiões de matriz africana ou não, e é isso que muitas vezes incomoda aos padres. Esse incomodo, assumido também por muitos leigos, sempre foi a causa de afastamento do profano e do sagrado e da transferência de muitas cerimônias, que originalmente eram feitas nas igrejas, para as praças e lugares públicos, ou ainda, da construção de suas próprias igrejas pelas Irmandades do Homens Pretos nos séculos XVIII e XIX. Comunidades como os Arturos e os Jatobás celebram seu Reinado exatamente como os antigos. Conquistaram seus terrenos, construíram suas capelas onde a Missa é presidida por um padre convidado, com a participação de ternos visitantes.

Bananal - MAS_0448.Flickr

A Missa Conga é uma maneira diplomática recente de incluir os Congadeiros e trazê-los novamente para o espaço físico da igreja, ressaltando o caráter católico de sua festa. Entretanto, ao mesmo tempo que intenciona incluir, a Missa Conga também os isola, criando um momento que é dedicado a eles e, de certa forma, separado das outras celebrações da comunidade católica local.

Se o isolamento contribui para a manutenção de preconceitos ele também coopera para que as tradições não sejam modificadas. Arturos e Jatobás conseguem realizar suas festas sem barganhar  muito com o clero e muito menos com o poder público. Festas de irmandades que não tem sua capela ou que dependem da utilização de áreas públicas precisam do apoio de prefeituras  e da boa vontade do pároco. Em Claudio é possível e mais fácil notar a diferença entre a festa nas comunidades mais distantes e autônomas e a festa da cidade, que acontece na praça e nas ruas e depende da autorização e envolvimento do poder público.

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

O que é o Sagrado ? 

Religiosidade popular inclui uma forte decisão sobre o que é popularmente sagrado. Alem de assimilar o que o clero apresentava como sagrado, os escravos e seus descendentes incluíram em seu catolicismo elementos que lhes eram sagrados na origem ou que passaram a ser sagrados pela forma como construíram seu cristianismo católico. Assim o rosário passou, além de objeto de devoção, a ser também protetor. A função das guardas de Congo e Moçambique, nos locais em que elas são distintas, também são formas de lidar com o transcendente e consequentemente, com o sagrado. Os mastros onde se fixam as bandeiras, os bastões dos capitães de Moçambiques e acessórios das suas roupas receberam um significado sagrado trazido das origens bantu e incorporados à forma africana de ser cristão. Todavia não parece correto chamar a isso de sincretismo, que aliás é um termo cada vez menos correto e menos utilizado por antropólogos e representantes dos movimentos ligados a afro-descendentes até porque a necessidade desse disfarce deixou de existir com o aumento da liberdade religiosa

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

É possível e provável que em alguma época e lugar do Brasil os escravos tivessem sido obrigados a disfarçar as crenças em seus deuses como uma crença católica mas, em primeiro lugar, o cristianismo chegou na África muito antes dos africanos serem trazidos para cá como escravos e, como consequência, muitos dos escravos que aqui chegaram já haviam sido cristianizados na África. Em segundo lugar, a maioria dos escravos que chegaram ao Brasil era bantus, que desconheciam os Orixás e veneravam Inquices. Usar as imagens de santos católicos para representar divindades Yorubás, se aconteceu, não deve ter sido quando essas irmandades de homens negros se formaram. Todavia é natural que nos dias de hoje, quando membros de várias religiões se inserem nas Congadas por vários motivos, se faça uma leitura dos ritos e sinais, sob uma ótica da fé Yoruba ou Espírita. Como já mencionei, é essa leitura que muitas vezes incomoda o clero católico e dificulta sua relação com alguns congadeiros.

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

O que eu vi e fotografei. 

         Comecei a fotografar as Festas do Rosário, em 2004 na cidade de Minas Novas e não por um interesse nas festas do Rosário mas pelo interesse em festas populares em geral.  Em 2005 fotografei a festa de Itaúna e percebi uma enorme diferença entre as duas. Me interessei por aprender e ver mais e fotografei a festa de Chapada do Norte, Oliveira, Claudio, Machado ( festa de São Benedito ), Serro, Araçuaí, e a festa da comunidade dos Jatobás. Também fotografei um Candombe no Quilombo do Açude em Jaboticatubas

            Em Minas Novas e nas outras duas cidades do Vale do Jequitinhonha onde fotografei, a festa é administrada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Além da Irmandade, o grupo principal, que articula todos os momentos da festa é o dos Tambozeiros do Rosário. Em geral os tambozeiros fazem parte da Irmandade mas nem todos os membros da Irmandade são tambozeiros.  Na festa de Araçuaí os Tambozeiros foram os únicos em toda a festa, além dos outros membros da irmandade e do povo que vem assistir e participar. Em Minas Novas e Chapada do Norte, outros grupos de cidades próximas vieram se juntar aos tambozeiros. Esses outros grupos, em geral, de denominam Congados. Congado de São Benedito, por exemplo.

         Em Chapada do Norte o levantamento do mastro e da bandeira de Nossa Senhora do Rosário tem um procedimento singular. Ele é feito após uma encenação idêntica a uma cavalhada em que mouros e cristãos à cavalo encenam uma disputa vencida pelos cristãos. Os dois grupos levam então, a pé, a bandeira para ser fixada e erguida no mastro. Essa cerimônia é chamada de Mastro a Cavalo.

            Tanto em Chapada do Norte como em Minas Novas a festa começa com a lavagem de igreja de N. Sra. do Rosário e com a encenação da retirada da imagem de Nossa Senhora, do rio, graças à posição geográfica das cidades, próximas a rios. A imagem é passada de mão em mão enquanto é levada em procissão para a igreja, para que várias pessoas, ao carregá-la, possam cumprir promessas ou pedir graças. Nessas duas cidades outro ritual importante é a prestação de contas e a abertura do cofre da irmandade para o levantamento anual da arrecadação. Esse ritual acontece no fim da festa. Em Chapada do Norte o cofre é trazido até a igreja pelo tesoureiro mas em Minas Novas outras pessoas da irmandade vão se alternando nessa função, numa outra forma de cumprir promessas  

Em Araçuaí, um momento diferente foi ver o rei e a rainha levarem o andor de Nossa Senhora.

Festa de N. Sra do Ros‡rio

            Oferecer comida é parte do ritual de compromisso e promessa das irmandades, reis e festeiros. Em Chapada do Norte e Minas Novas ela não é preparada para as guardas como nas outras cidades. O Dia do Angu faz parte da abertura da festa e a comida é distribuída a toda a população presente.

Claudio tem uma festa diferente porque a cidade se compõe de várias comunidades que moram em bairros mais ou menos próximos e que celebram em datas diferentes. Começando em meados de Julho e terminando na segunda semana de Setembro, cada comunidade celebra uma festa a cada final de semana com todo o ritual de levantamento e descida do mastro e troca de coroas. A festa da cidade é a penúltima. Algumas comunidades da cidade fazem procissões a cavalo.

Pagar promessas e pedir graças também tem formas diferentes em cada cidade. Em Itauna  isso se faz dando voltas  na igreja atrás das guardas e usando coroas que são emprestadas ao povo. Nas outras cidades, em geral se acompanha as procissões pelas ruas, atrás das guardas. Levar o cofre da irmandade e tirar a imagem de Nossa Senhora do rio são outras formas, como já disse. As comunidades dos Jatobás e dos Arturos também pagam promessas fazendo uma procissão ao redor da igreja, que no caso deles, foi construída num terreno da própria Irmandade.

 

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