Festas populares brasileiras

A comunicação dos mitos

Festa do Divino

 

 

Navegar e brincar é preciso

 N. Sra. do Livramento

A maioria das festas populares no Brasil tem um fundamento religioso ligado, direta ou indiretamente, ao cristianismo trazido de Portugal. Esse cristianismo tinha particularidades que se originaram na transformação que a península ibérica sofreu quando, à partir do século XII os portugueses a conquistaram dos mouros.

Várias festas foram trazidas de Portugal pelos colonizadores e transformadas na colônia.

Outras foram criadas aqui pelos escravos trazidos da África que reformularam o cristianismo popular, criando maneiras de celebrar suas crenças e de serem cristãos, sem deixar de serem negros.

As festas trazidas de Portugal seguiam o calendário litúrgico da Igreja Católica : Natal, Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi

As festas elaboradas pelos escravos e seus descendentes eram, quase sempre, em homenagem a Santa Efigênia, São Benedito e N. Sra. do Rosário.

 

Festa de São Benadito

 

 

 Muita mitologia e um pouco de teologia

 

O catolicismo popular foi a pedra fundamental que sustentou todas as festas. Irmandades e Ordens terceiras foram e ainda são as protagonistas na organização de um modo de pedir e agradecer onde o cantar e dançar se tornam oração. Como esse catolicismo se traduz numa religiosidade que é muito mais mitológica do que teológica as festas populares se fundamentam, principalmente, em mitos.

Mitos não são mentiras. O mito torna-se uma história verdadeira para quem o profere.

As festas populares são, com frequência, o mito ritualizado.
O rito é o movimento do mito.
É através do rito que o homem se incorpora ao mito beneficiando-se de todas as forças e energias que jorraram nas origens. Em resumo: o rito é a práxis do mito. É o mito em ação. O mito rememora, o rito comemora. ( Junito de Souza Brandão )

 

N. Sra. do Livramento

 

O Cristianismo europeu dividido

Quando o Brasil começou a ser colonizado a Igreja Católica na Europa estava às voltas com o Concílio de Trento e com a Reforma Protestante.

As consequências desse Concílio começariam a chegar por aqui com os Jesuítas, já no século XVI, mas só nos dois séculos seguintes e principalmente quando a colônia se torna independente e império, é que o processo conhecido como Romanização da Igreja iria modificar fortemente a religiosidade popular que aqui se estabeleceu.

A romanização iria interferir em várias devoções populares proibindo algumas, substituindo-as por outras ou modificando-as para atender aos interesses da catequese trazida pelo clero.

A festa do Divino foi uma das que, apesar de proibida, na prática continuou a existir no coração do povo, sendo reestabelecida em várias cidades brasileiras entre os séculos XIX e XX

 

 

Bom Jesus

 

 

 Os fins justificam os meios

Transformar pagãos em cristãos era um objetivo que admitia qualquer método, incluindo a força. Assim, encenações como as cavalhadas e cheganças, que representavam a vitória dos cristãos sobre os mouros, acontecida de fato no século XII, foram usadas como técnica de catequese e influenciaram outras brincadeiras como algumas congadas do estado de São Paulo e como o Ticumbi, que ainda brinca no Espírito Santo.

 

 

 

Ticumbi

 

 

 A devoção dos escravos

A devoção dos escravos e alforriados a São Benedito e Santa Efigênia se explica porque eles também eram negros e, portanto, podiam ser interpretados como ancestrais a quem vários dos grupos de escravos trazidos para cá tinham um enorme respeito e veneração.

A devoção a N. Sra do Rosário já veio com muitos escravos da África, onde foi difundida pelos Dominicanos no século XV

Todavia, a devoção dos escravos aos chamados santos negros era controlada pelos senhores e pelo clero.

A realização das festas em sua homenagem dependia da autorização dos senhores e da disponibilidade dos padres para a realização das cerimônias litúrgicas. Em função disso muitas celebrações aconteciam e ainda acontecem em datas que não correspondem à data oficial em que o santo é homenageado.

 

 

 Espontão

 

 

Uma grande e sonora mistura…

É difícil esclarecer com precisão a origem de tantas formas de brincadeiras devocionais. Transmitir uma tradição é relativamente mais fácil do que transmitir uma devoção. Assim, a tradição se mantém mas a devoção ou fundamento nem sempre é preservada com detalhes.

Cada nova leva de escravos que chegava ao Brasil, durante os 3 séculos de escravidão, encontrava por aqui uma comunidade de negros já organizada em Irmandades. Os recém chegados eram introduzidos nessas comunidades, absorvendo seus valores mas também as modificando com os seus.

É provável que por isso, em cada região brasileira, grupos com nomes diversos, tais como, Moçambiques, Ticumbis, Marujadas, Cambindas, Cacumbis, Caboclos, Catopés, ou simplesmente Irmãos, se formaram com modos diferentes de cantar e dançar, mas com a devoção aos mesmos santos. Nas áreas de mineração de ouro e diamantes, onde o controle pelos portugueses era maior, é ainda hoje evidente um catolicismo popular menos sincrético e mais ligado à participação do clero. Nas áreas de plantio de cana de açúcar, entretanto, as celebrações populares tem maior influência dos ritos e mitos trazidos da África ou que existiam entre os índios. Pernambuco, com os maracatus e Maranhão, com o Bumba meu boi, são exemplos de como a religiosidade popular foi traduzida em brincadeiras onde penas, lanças e arcos e flechas e chocalhos são comuns na devoção a São João Batista e São Pedro. A presença do rei, rainha e da corte, no maracatu nação ( baque virado ) demonstra a influência original da cultura bantu, que em Minas Gerais gerou os Reinados ou Congados em homenagem a N. Sra. do Rosário.

 

Rosário

 

O modo mais antigo de rezar

 Cantar e dançar fazem parte das formas mais primitivas de celebrar bons e maus momentos e de pedir e agradecer aos seres sobrenaturais e poderes transcendentais, em cujas mãos o ser humano sempre confiou seu destino e proteção. Primitivo não quer dizer atrasado ou obsoleto. Nesse caso é sinônimo daquilo que vem do mais íntimo depósito de sentimentos humanos. Um depósito onde o que está guardado não muda com o tempo porque de fato não precisa mudar. Não se atualiza sentimentos como fervor, gratidão, respeito e devoção e são nesses sentimentos que a religiosidade popular sempre plantou as raízes de suas festas. O canto e a dança, o ritmo dos instrumentos são formas de orações que sobreviveram aos séculos, mantendo-se fiéis ao que chamamos de fé ou, ainda melhor, de fundamento.

 

Festa de São Benedito

 

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