Divino e Santo Espírito

 Festa do Divino

O Espírito Português

Como quase todas as festas e tradições populares brasileiras, a festa do Divino Espírito Santo chegou ao Brasil trazida pelos portugueses e teve grande importância durante o período colonial e imperial.

Em Portugal ela foi instituída entre os séculos XIII e XIV pela própria rainha Santa Isabel de Aragão (canonizada no século XVII) e se espalhou por todo império, de modo especial no arquipélago de Açores.

Festa do Divino

No século XV, capelas consagradas ao Espírito Santo recebiam o nome de Império e em frente a elas se distribuía comida aos pobres. Essa distribuição era chamada de bodo.

No início do século XVI uma cerimônia para pedir esmolas para o bodo  passou a ser realizada e recebeu o nome de folia.

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O Espírito no Brasil

A devoção ao Divino Espírito Santo chegou ao Brasil com os jesuítas, no século XVI,  mas os primeiros registros de festas populares em homenagem à terceira pessoa da Santíssima Trindade datam do princípio século XVIII e aconteceram no Pará e na Bahia. Daí a festa se expandiu para outros estados como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso, Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, já nos meados do mesmo século, trazidas pelos colonizadores portugueses. Mas foi em Goiás que o culto ao Espírito Santo teve um desenvolvimento especial chegando a ser reconhecido como um dos principais núcleos de religiosidade popular da região centro-oeste do país, semelhante à devoção aos santos que acontece no nordeste e em outras regiões brasileiras

Festa do Divino

O Espírito Litúrgico

Do ponto de vista religioso, a festa obedece o calendário litúrgico da Igreja Católica e se realiza na data em que se comemora o Pentecostes. Originalmente era uma festa judaica relacionada às colheitas, passou a celebrar a entrega do decálogo a Moisés e foi transformada pelo cristianismo na comemoração do dia em que os apóstolos receberam o Espírito Santo, segundo o livro dos Atos dos Apóstolos.

Festa do Divino

Em Portugal e no Brasil colônia, onde a sociedade era essencialmente agrícola, essa relação com a colheita, como uma dádiva semelhante à vinda do Espírito Santo, continuou existindo e mantendo na festa o espírito de alegria, agradecimento, pagamento de promessas e partilha.

A catequese encenada

Cavalhadas 

Os Jesuítas trouxeram para o Brasil essa devoção e eles mesmos buscavam motivação e inspiração pelo Espírito Santo no seu trabalho de catequese, encarada na terra brasileira como a concretização da luta entre o bem e o mal, entre as trevas e a luz, semelhante às cruzadas. Por conta disso, a representação da luta entre mouros e cristãos, como forma de catequese,  se tornou parte frequente da festa do Divino em várias regiões brasileiras com nomes variados como cavalhadas, cheganças e fandangos. Nessas encenações, uma curiosa mistura de conceitos antagônicos se harmonizavam, admitindo que a conversão cristã e a graça de receber o Espírito Santo, podia ser obtida através da força e das armas.

Cavalhadas

O Divino do Povo

Festa do Divino

Sua origem numa comemoração de colheitas fez da festa do Divino uma celebração de fartura e partilha. Todavia, comida abundante servida ao povo, não se faz sem organização. Assim, as festas do Divino precisam ser, até hoje, preparadas com antecedência por um grupo de pessoas responsáveis por providenciar o necessário.

O principal encarregado recebia o honroso título de Imperador, numa possível alusão ao império cristão iniciado com a conversão de Constantino, no século IV.

Escolhido entre as pessoas influentes nas cidade, o Imperador, com frequência, custeava boa parte dos festejos como forma de agradecimento por alguma graça alcançada. 

As folias se dedicavam a visitar as casas, mesmos aquelas em distantes propriedades rurais, para pedir as prendas que fariam o sucesso da festa.

Receber uma folia em casa, com as bandeiras e os cantadores, sempre foi considerado uma benção. Por isso cada visita é uma celebração com refeição, cantos de chegada, de agradecimento e de despedida onde sempre se pede a proteção do Divino Espírito Santo para todos daquela casa.

Na casa do imperador ou em alguma especialmente preparada para este fim, se edificava o império do Divino, de onde as bandeiras e a coroa saem para as procissões, novenas  e para onde retornam no fim do dia.

Festa do Divino

A coroa é a forma curiosa como o Divino Espírito Santo é representado nas procissões já que a figura da pomba nem sempre é a adequada à veneração e adoração.

O Divino, o Clero e a elite brasileira

Festa do Divino

Nos meados do século XIX um processo de fortalecimento dos vínculos entre a Igreja Católica no Brasil e a Santa Sé, conhecido com romanização da Igreja, influenciou uma revisão da religiosidade popular, e de modo especial, das festas do Divino

Além disso, a sociedade cada vez mais dependente dos grandes centros urbanos industrializados e afastada do ambiente rural, começa a considerar o que era popular e rural como atrasado e inadequado, elitizando as formas de lazer, cultura e até as manifestações de fé.

Como consequência, as manifestações populares, entre elas a festa do Divino, começaram a ser consideradas como expressões da ignorância, fanatismo e superstição.

Festa do Divino

Novas devoções foram introduzidas e incentivadas pelo clero para substituir as populares. Em várias regiões elas chegaram a ser proibidas ou foram reformuladas para atender aos interesses econômicos das paróquias. A devoção ao Divino Espírito Santo ficou restrita ao interior dos templos.

O Divino, hoje

Apesar da proibição de ser celebrada como uma festa popular, a devoção ao Divino Espírito Santo, permaneceu recolhida no coração das gerações que se sucederam, como uma verdadeira fé do povo e aos poucos foi retomada em várias localidades, na medida em que as posições do clero foram revistas e que a participação do leigo voltou a ser apreciada e incentivada, especialmente a partir do Concílio Vaticano II.

Florianópolis (SC) , São Luiz do Paraitinga (SP), Pirenópolis (GO) , se tornaram famosas pela beleza de sua festa conseguida, sobretudo, pela organização dos leigos e das Irmandades do Divino Espírito Santo que retomaram a festa fazendo-a novamente uma partilha de recursos com os mais pobres.

Novamente os Impérios voltaram a ser montados e Imperadores voltaram a sair às ruas em procissão, com sua corte.

A comida voltou a ser preparada em quantidade com os gêneros ofertados e recolhidos, desde o fim da festa anterior, pelas folias que vão de casa em casa cantando, rezando e pedindo.

Em cada lugar, uma comida ou doce típico da festa é preparado e servido ao povo.

As novenas que começam e terminam com uma procissão de bandeiras e da corte, que sai e volta para o império.

Divinas Curiosidades

Embora o ponto alto da festa do Divino seja o Domingo de Pentecostes, há lugares do país em que a festa acontece em outras datas. Em Piracicaba, por exemplo, por ser realizada no rio que dá nome à cidade, a festa se realiza cerca de 30 a 40 dias depois por conta de se esperar que o nível das águas, normalmente muito alto na ocasião de Pentecostes, ofereçam mais segurança

Festa do Divino

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