Bumba meu boi – Os Sotaques Maranhenses no mês de Junho 

Bumba meu Boi

O Boi e a festa

Bumba meu Boi 

A São Luis do mês de Junho é uma cidade diferente dela mesma.

O ciclo junino é também o ciclo do Bumba boi ou Bumba meu boi.

O boi sempre foi um animal importante em diversas culturas. Na África os povos bantos mudaram a face do continente em função do pastoreio. Bois eram parceiros dessas conquistas e sua presença simbólica em festas brasileiras ligadas aos afrodescendentes aparece tanto nos festejos maranhenses quanto em congadas mineiras.

Ngoma ( pronunciada ingoma ) é uma palavra banto que significa tambor enquanto que Ngom ( ingom ) é outra palavra do mesmo ramo linguístico que significa boi. Assim boi e tambor, em função do couro, estão ligados às celebrações dos afrodescendentes e é certamente por isso que o boi é homenageado em várias de suas festas.

No Maranhão o ciclo do boi começa no dia de São João, quando os bois são batizados por padres católicos e a partir daí estão prontos e preparados para brincar durante cerca de duas semanas, até os dias de São Pedro e São Marçal que encerram as festas juninas no Maranhão. Os três santos são personagens de uma lenda que fala de um boi de estimação de São João que o emprestou a São Pedro, que o emprestou a São Marçal, e que foi sendo sucessivamente emprestado até que ele acabou sendo morto e comido  por uma comunidade que desconhecia o apreço que o dono tinha pelo animal.

Todavia, com a crescente comercialização do folclore e sua transformação em atração turística é comum que alguns bois antecipem o batizado para poderem participar de um maior número de apresentações em eventos, normalmente remuneradas.

 

Cada boi um sotaque

Bumba meu Boi

 

É possível que a brincadeira do boi maranhense tenha surgido no início do século XVII , na região de Curupuru, Guimarães e Alcântara em função da grande quantidade de escravos envolvidos no cultivo de algodão, arroz e cana de açúcar, e a partir daí se espalhou pelo estado.

Em cada região, entretanto, a marcação do ritmo foi estabelecida com instrumentos diferentes e passou a ser chamada de sotaque do boi. O sotaque também fez diferenciar as roupas e as personagens que formam cada grupo.

Na região de Guimarães, as Zabumbas, grandes tambores, dão nome ao sotaque que parece ser o mais antigo e mais africano de todos. Mais ao norte, a região de Curupuru ficou conhecida pelo modo como os tocadores batem em pandeiros com as costas da mão e por isso esse sotaque é conhecido como Costa de Mão. Na chamada Baixada Maranhense, o sotaque da Baixada é marcado por grande pandeiros e pela presença dos Cazumbas, personagens mascarados que só existem nesse sotaque, e dos Tapuias guerreiros.

Na grande São Luis prevalece o Sotaque da Ilha ou Sotaque de Matraca, marcado pelo bater de pequenas tábuas; as matracas.

 

Uma festa que começa antes

 Bumba meu Boi

Para o Boi ser batizado em Junho, muita coisa tem que ser feita. Ensaios, composição de toadas e, principalmente, a confecção do couro do boi. Ele é normalmente feito de veludo preto com uma enorme quantidade de paetês, vidrilhos e lantejoulas que são bordados por gente preparada que até deixa outras atividades para se dedicar ao ofício de bordar. O couro é encomendado pelo amo do boi e em geral reproduz cenas bíblicas relacionadas ao cristianismo e a São João Batista. Essa tarefa se torna cada dia mais cara e mais difícil. Com o fechamento de uma das mais tradicionais fábricas da matéria prima, só existe agora uma alternativa para a compra das miçangas e vidrilhos que garantem que tanto o couro do boi quanto a roupa dos componentes, permaneçam vistosos mesmo depois de lavados. O processo de confecção do couro do boi, em particular, envolve uma etapa de criação seguida da execução por bordadeiras caprichosas que podem ser parte da comunidade do boi ou contratadas especialmente para o serviço. As toadas também são arte a ser elaborada. Na voz do cantador elas animam e organizam os brincantes. Cantadores e toadas fazem fama como nos sambas enredos de escolas de samba.

 

 O Auto da Catirina e Pai Francisco

Bumba meu Boi 

A estória da mulher grávida que deseja comer a língua de um boi é o auto mais conhecido entre os encenados pelos grupos de bois, mas não é o mais frequente. Embora seja comum a coreografia vaqueiro e boi, nem sempre ela está ligada à epopeia do casal de escravos Pai Francisco e Catirina. O tempo se encarregou de promover transformações nos vários grupos a ponto de alguns se apresentarem até com mais de um casal.

Qualquer que seja a brincadeira, o boi é o destaque. Aquele que o articula, conhecido como o miolo do boi, é o responsável por fazer com que ele brilhe e chame a atenção. A evolução do boi com o vaqueiro também lembra a do mestre sala e porta bandeira nas escolas de samba.

  

Nem tudo é brincadeira

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O Bumba meu boi não é apenas uma brincadeira. É uma homenagem e um ato de devoção aos santos Pedro, Marçal e, principalmente, João, o batista. É um ritual mítico que se alimenta com o sagrado das promessas e com a crença sincera de que a dança do boi agrada a São João. O boi é um vínculo e uma forma de aproximação do devoto com o santo. É quase uma forma de oração materializada na composição das toadas no cuidado com o bordado das roupas e do couro do boi, na alegria dos brincantes.

A transformação dessa devoção em espetáculo patrocinado, ameaça a espontaneidade da brincadeira que tem sido transformada em apresentações nos diversos arraiais montados em São Luis. Fora do centro da capital maranhense, entretanto, ainda é possível encontrar comunidades onde o boi é festa para o santo, onde se paga promessa e onde o batizado acontece sempre na noite de São João.

Emblemáticos são os dias de São Pedro e São Marçal, últimos do ciclo junino, quando os bois brincam de dia, visitam a igreja de São Pedro e prometem voltar no ano seguinte.

  

Completando

 Bumba meu Boi

Muitas das festas do cristianismo católico romano foram adaptadas de outras festas cujo sentido foi modificado para atender aos propósitos de catequese e evangelização. Natal, Pentecostes, Páscoa; são exemplos de celebrações que já existiam antes de serem transformadas em rituais do cristianismo. O ciclo junino, na Europa, era o tempo de celebrar o solstício de verão, quando se tem o dia mais longo do ano, e com ele o ciclo de colheitas e plantio da agricultura.

Os colonizadores transformaram as celebrações do verão europeu na festa em homenagem a São João Batista assim como o solstício de inverno, quando os dias começam a ficar mais longos, foi associado ao Natal. João Batista, que é considerado o último profeta do primeiro      ( antigo ) testamento da Bíblia, faz assim a ponte para o segundo ( novo )  testamento anunciando o Messias.  Seus nascimentos são assim associados aos dois solstícios do ano. Aliás, João Batista é o único Santo da Igreja Católica de quem se comemora o nascimento e não a morte.

Bumba meu Boi

 

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