Escultura em madeira

Escultura em Madeira – Santeiro – Osni Geraldo de Paiva – S‹o João del-Rei – MG

Há alguns anos eu estava no Piauí fotografando artesãos e encontrei um santeiro, Charles de Castro Silva, modelando uma imagem de São Camilo em barro. Ele me contou que quando menino, na época do Natal, sempre pedia para que a mãe comprasse um presépio, mas nunca era atendido. Um dia resolveu modelar, ele mesmo, um presépio de barro.

            Dessa época em diante nunca mais parou de fazer santos de barro.

Arte Santeira

Charles de Castro Silva, esculpindo uma imagem de São Camilo em barro. Ao fundo a imagem de São Leopoldo – Escultura em barro – Parnaíba – PI

             A motivação de Charles foi a de muitos artesãos que, desde o Brasil colônia, se empenharam neste particular segmento da arte sacra: a arte santeira.

            De fato, é possível e bastante provável que a arte sacra e, de modo especial, a prática de esculpir e modelar santos em madeira e barro tenha sido a primeira forma de arte desenvolvida no Brasil dos colonizadores.

Escultura em madeira

Escultura em madeira – Santeiro – Ronaldo Luiz do Nascimento – Esculpindo N. Sra. da Concei‹ção – S‹ão Jo‹ão del-Rei – MG

            A colonização foi amparada pela realeza e pelos interesses comerciais da nobreza portuguesa, mas também foi útil para expandir o domínio do Catolicismo Romano, especialmente numa época em que se começavam a ouvir na Europa as vozes da Reforma Protestante, que provocou o Concílio de Trento e fez a Igreja Católica olhar para dentro de si mesma. Nesse contexto, as imagens sacras e a arte santeira serviram como um contraponto e como afirmação da doutrina, das tradições e da catequese Católica diante das acusações de idolatria promovidas pelos reformadores protestantes.

Artesanato Tracunhaém

Artesanato em Barro – Tracunhaém – PE – Ivaldo Barbosa de LIma – Modelando N. Sra. da Conceição

            A fundação de vilas e cidades, com a consequente construção de igrejas criaria uma demanda pelas imagens, primeiramente trazidas em Portugal, e que com o aumento da população, principalmente em decorrência da descoberta de ouro e diamantes em Minas Gerais abriria espaço para que artesãos aqui treinados e instalados, principalmente na Bahia e em Pernambuco,  iniciassem uma produção nacional bastante variada, onde estilos clássicos e técnicas sofisticadas se misturavam a um imaginário popular e eventualmente mais rude, para atender a todos os gostos e orçamentos.

Oratório

Oratório em madeira – Oratório de Viagem – Juazeiro do Norte – CE – Autor desconhecido. 

            Nos primeiros dois séculos da colonização a predominância de um catolicismo muito mais doméstico e familiar implicaria numa demanda por imagens e oratórios usados por viajantes e para a devoção nas casas e sedes das fazendas. Essas imagens são muito importantes na história da arte sacra brasileira e é certamente delas que vem a inspiração e o exemplo para a arte santeira que ainda hoje se executa em vários estados brasileiros, qualquer que seja a motivação dos artesãos.

Escultura

Escultura em madeira – Dilson Dias de Almeida (Mestre Nego) – Barreiras – BA

 

Arte santeira hoje

            Esculpir e modelar santos ainda é uma das mais expressivas formas de arte popular brasileira. Em lugares distantes e em grande centros, homens e mulheres dão à madeira e ao barro a forma de outros homens e mulheres cuja história foi exemplar para o Cristianismo, desde os primeiros séculos. O que leva esses artesãos a continuar seu trabalho único, num mundo onde as mesmas imagens são produzidas industrialmente e a preços menores, com plástico, resina e gesso?

Escultura em madeira

Escultura em Madeira – Santeiro – Osni Geraldo de Paiva – S‹o Jo‹o del-Rei – MG

            Trabalhando sozinhos ou em equipes em que cada membro realiza uma parte do processo, histórias como a de Charles continuam acontecendo todos os dias.

            As motivações podem, em alguns casos, serem apenas econômicas mas há as que vão além da questão financeira, da geração de renda e passam pela própria devoção de alguns que entendem sua obra como uma forma de agradecimento e oração e como uma oferta e homenagem à devoção de outros. Nesses casos, com frequência, o imaginário se descola da iconografia clássica e estabelece representações particulares da devoção e do entendimento de cada artista, como por exemplo na variedade de concepções de presépios no Vale do Paraíba ou na imagem de Maria grávida descansando com José ao seu lado, elaborada por José Joaquim da Silva, um artesão de Tracunhaém, Pernambuco.

Sagrada Família

Sagrada Família – Escultura em barro – Tracunhaém – PE – José Joaquim da Silva

 

Artistas de muitos talentos.

            Barro ou madeira são matérias primas com que cada talento se identifica. O barro tem a vantagem de admitir erros na fase de modelagem, que a madeira não suporta. Em contrapartida, precisa ser queimado com cuidado e paciência para que a peça fique resistente. Curiosa exceção são as peças de barro do Vale do Paraíba. A maioria é apenas modelada e seca ao tempo, sem queima. As peças são delicadas sob todos os aspectos e mantém uma tradição possivelmente iniciada e incentivada entre a população mais pobre de Taubaté, por frades franciscanos que lá se estabeleceram no século XVII.

presepio-5

Presépio de barro – Taubaté – SP

            A arte santeira, mesmo que tenha seu viés comercial, é ainda o legado de uma arte que começou, de fato, como uma experiência religiosa vivida por quem fazia e por quem comprava as imagens produzidas a partir de técnicas adaptadas, improvisadas e acima de tudo, de um imaginário que pretendia e pretende trazer o sagrado, transcendente, para as formas criadas com barro e madeira, de modo a ser tocado pelas mãos, visto com os olhos e venerado na contemplação.

 

3 Marias

Escultura em barro sem queima .Imagens de N. Sra. das flores realizadas pelas 3 irmãs figureiras de Taubaté – SP – Luiza, Edith e Candida – Outubro/2002

           

 

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