Afro Cristianismo no Brasil

A religiosidade popular dos Afro descendentes

Festa de S‹o Benedito 

 

O começo da história.

O Cristianismo nasceu na Palestina e foi levado pelos apóstolos e discípulos a outros lugares do mundo.

Na Europa ele cresceu e ficou forte, especialmente depois da conversão do imperador romano Constantino, no início do século IV. O cristianismo europeu inspirou pintores, compositores, escultores e arquitetos que se basearam no antigo e sobretudo no novo testamento para uma produção de obras de arte usadas na edificação e decoração dos templos e palácios e na música litúrgica. Obras que serviram para propagar ainda mais o cristianismo, celebrando e divulgando suas datas mais importantes.

Personagens e cenas do Evangelho foram representadas com traços europeus e a música litúrgica foi criada para ser executada pelos mesmos instrumentos usados nas cortes.

Quando os europeus se aventuraram como navegadores, levaram toda essa iconografia e esse modo de celebrar para os lugares em que aportavam.

Emblemáticos são o quadro A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles e a cena do filme A Missão que mostra os nativos sul americanos, catequisados pelos Jesuítas, cantando num coral de música sacra.

Na África os europeus foram buscar, entre outras coisas, o sal, o ouro e a noz de cola.  Levavam tecidos, espadas, cavalos, e também o cristianismo, que entretanto não era exatamente uma novidade no continente africano.

De fato, o cristianismo chegou na África muito tempo antes disso. No século IV também se tornou a religião oficial da Etiópia e Santa Efigênia, padroeira de várias irmandades de escravos e alforriados e de guardas de congo e moçambique  que hoje participam das festas de Nossa Senhora do Rosário em todo o Brasil, era uma princesa Núbia que foi convertida ao cristianismo pelo evangelista Mateus.

Com a conversão de Constantino, as rotas de comércio de grãos que vinham do norte da África para abastecer o exército romano, levaram o cristianismo até outras regiões do continente. Todavia, esses primeiros cristãos africanos não tinham a liturgia católica, que chegou com os europeus, séculos depois.

Palmital _MAS3176.Flickr

Assim também, o cristianismo dos primeiros anos do Brasil colônia foi essencialmente popular e vivido de acordo com a cultura do povo. Entre os africanos trazidos como escravos havia muitos deles que já eram cristãos na África, graças também aos missionários Dominicanos que estiveram por lá no século XV. Nessa comunidade negra, a fé cristã era celebrada com o toque dos atabaques e não com o canto gregoriano. Com o tempo essa diferença cultural entrou em choque com o cristianismo romanizado trazido pelo clero e experimentado nos templos.

As Irmandades

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

A forma como os africanos  e seus descendestes conseguiram preservar sua identidade e dignidade foi a organização em Irmandades. Fundadas sob a proteção de São Benedito, Santa Efigênia ou de Nossa Senhora do Rosário as irmandades conseguiam recursos para curar seus doentes, alforriar seus irmãos e enterrar seus mortos. Foram também as principais responsáveis pela manutenção da devoção popular aos seus santos padroeiros. Eram como ordens terceiras de homens e mulheres negros.

Todavia , a forma de demonstrar  alegrias e tristezas usando instrumentos e elementos de sua cultura de origem era, no máximo, tolerada por uma sociedade que só entendia o cristianismo a partir da visão europeia. Assim, apesar de batizados, escravos e alforriados não eram tratados da mesma forma que os católicos brancos. O cristianismo dos afro descendentes foi por isso o responsável pela edificação de uma estrutura própria que incluiu a construção de igrejas e a organização de festas e celebrações litúrgicas particulares que nem sempre acompanhavam o calendário oficial da Igreja por depender, muitas vezes, da disponibilidade de um padre mais tolerante. Com frequência essa era a única forma dos negros celebrarem dentro das igrejas.

A Missa Conga foi uma inculturação feita no século XX  que trouxe o ritmo das caixas e dos tambores novamente para as igrejas frequentadas pelos brancos.

É curioso como essa forma de se organizar socialmente entre os afro-descendentes aconteceu em vários lugares do Brasil de forma muito parecida mesmo em tempos em que a comunicação era muito difícil.

 

Festa de Nossa Senhora do Ros‡rio

 

O Sincretismo
Sincretismo é uma palavra normalmente usada para indicar a forma como os escravos, impedidos de se dedicar às divindades africanas, usavam imagens de santos católicos para, na verdade, reverenciar seus deuses.  Isso certamente foi verdade, mas não é a explicação para tudo que aconteceu em mais de 300 anos de escravidão. Até hoje o cristianismo dos afro descendentes é interpretado por muitos como sincrético, mas isso é uma afirmação discutível. Com a liberdade de cultos, esse tipo de sincretismo perdeu sua função.

 

Taieiras

O conceito europeu de religião nada tem em comum com o da maioria dos povos trazidos da África, onde eles adoravam e agradeciam aos ancestrais e às entidades sagradas que eram responsáveis e controlavam os elementos e as forças da natureza. O templo de cada uma dessas entidades era o lugar onde habitavam ou o elemento que controlavam. Os cultos seguiam o ciclo da natureza, assim como no antigo testamento. Não era frequente a necessidade de templos ou de imagens. Por isso não é tão simples afirmar que todos esses povos escravizados interpretavam suas divindades a partir de uma iconografia europeia.  É verdade que nos tempos de hoje é muito comum que pessoas frequentem mais de uma religião mas isso nunca foi um problema para os afro descendentes. O preceito de uma religião única de um deus único é europeu, trazido do judaísmo.

Vários pesquisadores e estudiosos de hoje concordam que quando um escravo se ajoelhava diante da imagem de São Benedito ele podia estar mesmo reverenciando o santo católico e não a uma divindade sincretizada. Para ele não havia problema em fazer isso mesmo que paralelamente continuasse acreditando e reverenciando suas divindades africanas.

 

Cacumbi

No recôncavo baiano, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, que oficialmente existe desde o início século XVIII, é formada apenas por mulheres negras que em sua maioria são ialorixás e que, nos dias da festa de Assunção de Nossa Senhora, deixam seus terreiros para participar das Missas e das procissões católicas, sendo naturalmente recebidas pelos padres, a quem de fato até ajudam a fazer a festa.

Em Laranjeiras, Sergipe, as Taieiras são também um grupo majoritariamente formado por mulheres. Tradicionalmente ligado às festas de São Benedito e de N. Sra do Rosário, hoje também tem fortes relações com o culto Nagô aos Orixás. Todavia, mesmo incorporando elementos da cultura africana, particularmente os instrumentos como as caixas e os querequechés, ao ritos de louvação realizados em templos católicos, seus membros distinguem enfaticamente o momento de se dedicar a cada culto.

Essa maneira de ser, sincrética no sentido de incorporar elementos de sua cultura ao cristianismo popular não funde, necessariamente, várias religiões numa só.

A Espiritualidade Africana

 

Festa de N. Sra do Ros‡rio

A maioria dos africanos que vieram como escravos para o Brasil eram bantos, um grupo étnico de várias tribos que vivia na África central e que tinham uma língua, religião e organização social parecida. Esse grupo também foi predominante no continente africano por muito tempo, mesmo tendo se misturado a outros povos. Dentre todos os grupos de homens e mulheres que foram trazidos da África como escravos, foi dos Bantos que recebemos a maior parte da influência na nossa cultura. Centenas de verbos, adjetivos e substantivos que hoje usamos no nosso português brasileiro vieram comprovadamente das línguas bantas. Tão incorporada essa cultura está entre nós que nem sempre conseguimos identificar sua origem. Foi também entre os bantos que nasceu a capoeira, o samba de roda e a maioria das festas populares dedicadas aos santos padroeiros das irmandades, que elaboraram uma espiritualidade popular católica temperada por ritmos africanos e costumes trazidos da África, nem sempre aceitos pelo clero.  Os bantos veneravam entidades chamadas Inquices e tinham um profundo respeito pelos ancestrais, comum em outras etnias, mas não conheciam os Orixás. Essas divindades eram adoradas pelo povo que habitava a região entre os rios Volta e Niger e onde hoje estão os países de Gana, Togo, Benin e Nigéria. Parte desse povo, os Iorubá, que aqui também foi chamado de Nagô, chegou como escravo ao Brasil entre os séculos XVII e XIX e foi utilizado principalmente na Bahia e no Maranhão.

Outro grupo que sucedeu os bantos no comércio de escravos foi o dos jêjes. Na África habitavam regiões vizinhas à dos Iorubas.  Eles adoram os Vodoons, sábios ancestrais que se tornavam conselheiros depois de sua morte. Sua presença ainda é marcante no Maranhão, mesmo tendo sofrido fortes influências posteriores das tradições Iorubá.

Festa de S‹o Benedito

A Espiritualidade de hoje

A cultura Iorubá se estabeleceu com força na Bahia, e sua espiritualidade, mesmo frequentemente reprimida, sempre se manifestou em quase tudo que era organizado pelos afro descendentes naquele estado.

No início do século XX  a Bahia se tornou fonte de inspiração para diversas formas de arte. Música, pintura, escultura, fotografia, buscaram no cenário baiano e nos terreiros Iorubás, a  inspiração para sua produção. Artistas e escritores da Bahia, Rio e São Paulo, frequentavam os terreiros e prestavam homenagem aos líderes religiosos e Orixás, nas estórias que escreviam, nas letras de suas músicas e nas cores de seu quadros. Dorival Caymi, Vinícius de Morais, Caribé, Pierre Vergé, Jorge Amado, fizeram muitas de suas obras inspirados na cultura da Bahia, tornando populares e mais respeitáveis ainda o nome dos Orixás e de Ialorixas como mãe Menininha do Gantois. Movimentos como a Bossa Nova e a Tropicália também ajudaram a popularizar e diminuir o preconceito contra a espiritualidade Iorubá. Assim, se, por conta da repressão e da necessidade de camuflar suas práticas religiosas, o Candomblé da Bahia pode ter se escondido por trás de outras religiões, quando a liberdade de culto passou a ser um direito, essa enorme produção musical e literária e artística difundiu em todo o Brasil todos os aspectos da cultura Iorubá, incluindo o que foi então chamado de sincretismo.

Por outro lado a origem banto de muitos dos nossos costumes, ficou esquecida e tudo o que diz respeito à espiritualidade dos afro descendentes tende hoje a ser explicado e observado sob a influência da cultura mais divulgada: a Iorubá

O cristianismo dos afro descendentes de hoje

 

Festa de S‹o Benedito

A organização em Irmandades persiste ainda hoje, mesmo em grandes centros. Em São Paulo está a terceira mais antiga Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Brasil, que completou 300 anos em 2011. O legado das primeira irmandades permanece em vários estados onde as festas dos padroeiros são celebradas nas ruas com muita dança e música. Dependendo da origem do africano que aqui chegou e da realidade que ele encontrou onde chegou, as irmandades se organizaram de forma particular, gerando grupos como os Moçambiques, Congos, Taieiras, Cacumbis, Catopés, Cheganças e Marujadas que, apesar dos nomes diferentes, tem em comum a devoção aos mesmos santos católicos.

 

Missa Inculturada

 

 

Na década de 80 os movimentos ligados às Comunidades Eclesiais de Base e às Pastorais Sociais levaram a CNBB ( Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil ) criar a Pastoral Afro, movimento de valorização da comunidade de afro descendentes na Igreja Católica. Com a criação do dia Nacional da Consciência Negra, em memória da morte do líder Zumbi dos Palmares, as Pastorais Afro atualizaram a Missa Conga e a trouxerem sob uma nova forma de Missa Inculturada também para os grande centros, onde hoje a Boa Nova também é celebrada com atabaques.

 

Missa Inculturada

 

 

Completando

As Irmandades de Homens Pretos eram normalmente criadas sob a proteção de São Benedito ou Santa Efigênia, porque estes eram também negros, ou de Nossa Senhora do Rosário, por causa da devoção já introduzida na África pelos Dominicanos e por causa de uma lenda sobre a aparição de uma imagem de Nossa Senhora nas águas, que só foi resgatada por um grupo de escravos, apesar da tentativa frustradas dos senhores brancos

 
 
 
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