Bambu

A Madeira dos Pobres

 

Uma planta muito antiga

 

Existem no mundo cerca de 50 gêneros e 1300 espécies de bambu que começaram a se desenvolver na Terra no período Cretáceo, antes mesmo do aparecimento do homem.

Sua utilização foi registrada em desenhos chineses há 3500 anos. Em algumas comunidades asiáticas o mito da criação está relacionado ao bambu, de cujo colmo teria surgido a humanidade. Na China e no Vietnã ele é o símbolo da família e da longevidade. Na índia ele ficou conhecida como a madeira dos pobres. De fato há muito tempo as propriedades do bambu vem sendo empiricamente exploradas e fazendo da planta uma importante matéria prima para diversos usos que vão desde o alimento até a construção de casas.

Nenhuma outra planta vem participando, de forma tão variada, do desenvolvimento humano.

Quase todo menino que cresceu entre os anos 50 e 60, pescou com vara de bambu, empinou pipas feitas com varetas de taquara e viu cercas feitas de bambu protegendo pomares e jardins.

 Bambu  ( Bambusa vulgaris )

Uma super planta

 

O bambu é uma planta abundante nas regiões mais quentes e com muita chuva, como a Ásia, África e América do Sul. É a planta que cresce mais rápido que qualquer outra do planeta. Seus brotos podem se alongar em até 1 metro por dia e precisam de no máximo 6 meses para atingir a altura máxima que pode, em algumas espécies, chegar a 30 metros.

Se reproduz anualmente sem precisar de ser replantada.

É forte e flexível, relativamente leve e fácil de ser trabalhado com ferramentas simples.

Hoje se sabe que a utilização do bambu contribui para o sustento de milhões de pessoas e chega a movimentar a impressionante quantia de US$ 30 bilhões no mercado interno da China.

 Bambu  ( Bambusa vulgaris )

Uma planta pouco conhecida

 

O bambu começou a chamar a atenção de pesquisadores brasileiros há cerca de 3 décadas.

Várias frentes de trabalho e pesquisa, que atualmente trocam informações com frequência, divulgando experiências e resultados de pesquisas, incentivam novos pesquisadores a apostar no bambu como um material  adequado para uma série de aplicações cada dia mais variadas.

Essas pesquisas ressaltaram as qualidades físicas e químicas já intuídas pelas gerações mais antigas e revelaram o bambu como um excelente sequestrador de carbono, muito útil em reflorestamentos, na recomposição de matas ciliares e na proteção e manutenção da umidade dos solos.

Associado à sua rapidez de crescimento o bambu começou a aparecer como uma alternativa ecológica para a utilização da madeira, incluindo o eucalipto.

 Bambu  ( Bambusa vulgaris )

Uma planta que ganha fama

 

A falta de informações, no início desse processo, fez e ainda faz alguns pesquisadores brasileiros olhar na direção de onde já se usava o bambu há mais de 30 séculos; o oriente e a manter contato com outros pesquisadores que, de outras partes do mundo já tinham olhado naquela direção.

A pesquisa sobre o bambu ganhou status acadêmico e nas faculdades e universidades, mestrados e doutorados sobre as propriedades da planta se tornaram cada vez mais frequentes propondo novas aplicações e novos métodos de qualificação.

A ausência de normas técnicas específicas vem provocando uma discussão sobre a utilização e adaptação das que são usadas para a madeira e regulamentando um novo campo de conhecimento que beneficia os novos pesquisadores.

Surgiram projetos de sustentabilidade, geração de renda, design, decoração, arquitetura; em geral de caráter artesanal ou semi industrial.

A exceção acontece no estado de Pernambuco onde está a fábrica de uma empresa que há cerca de 30 anos planta uma espécie exótica de bambu (Bambusa vulgaris ) em dezenas de milhares de hectares de terras pernambucanas, maranhenses e paraibanas, para a fabricação industrial de papel de alta resistência, utilizado em sacarias de cimento, que é o produto de outra empresa do mesmo grupo.

Bambu  ( Bambusa vulgaris )

Bambu  ( Bambusa vulgaris )

A escolha da espécie adequada e a viabilização da sua transformação em matéria prima para o papel também contou com o apoio de pesquisadores a Universidade Federal de Viçosa – MG

 

Uma planta verde e amarela

 

No Brasil existem 89% de todos os gêneros e 65% de todas as espécies de bambus conhecidas nas américas. São 34 gêneros e 232 espécies nativas, das quais 174 são consideradas endêmicas. Somam-se a elas  as espécies exóticas trazidas em geral do oriente com objetivos ornamentais, que tem sido a utilização mais frequente do bambu no Brasil.

Esse cenário começou a mudar a partir da década de 80, através de iniciativas pontuais de pesquisadores geralmente ligados à área de materiais para construção, que começaram a trocar informações auxiliados pelo advento da internet.

Redes de trocas de informação foram então criadas. Entre elas está a Rede Brasileira de Bambu – http://www.redebrasileiradobambu.com.br/index.html da qual participam pesquisadores, arquitetos designers e usuários de vários estados brasileiros. Um deles é o engenheiro agrônomo Elias Melo de Miranda que desenvolve na EMBRAPA de Rio Branco, no Acre a pesquisa sobre o manuseio do bambu. Existem no Acre cerca de 7 milhões de hectares cobertos de bambu nativo, principalmente do gênero Guadua, indicado, sobretudo, como elemento estrutural em construções de baixo custo.

O trabalho conjunto da EMBRAPA e do SEBRAE, no Acre, permitiu que Assis de Oliveira da Silva, conhecido como Dandi, que vive na reserva extrativista Chico Mendes, trocasse a extração de borracha e os bicos na construção civil pelo replantio de mudas de bambu. Dandi recolhe as mudas na floresta e as planta novamente em canteiros de onde são enviadas para um empresário no estado de São Paulo  que há 4 anos trabalha com a formação de florestas de bambu em lotes degradados, de proprietários de terras em vários estados, que por sua vez se tornam produtores de matéria prima.

Toda essa atividade e troca de informações tem aumentado o interesse pelo uso do bambu e está ajudando a resolver um dos principais problemas dessa cadeia produtiva: a falta de fornecedores nacionais, que obriga a importação de algumas espécies, dos países vizinhos, quando a quantidade é muito grande.

Além disso, testes de resistência  e manuseio, permitem que o bambu seja utilizado em sua forma natural, ou adaptado através de processos de laminação e colagem para várias outras aplicações que tiram proveito de sua flexibilidade e resistência mecânica.

Bambú_MAS8778

Em Santa Catarina, ripas de bambu laminadas e tratadas contra fungos e insetos estão servindo para a fabricação industrial de móveis e ainda viabilizaram um projeto acadêmico de tecnologia naval para construção de canoas que, apesar de ainda não poder ser feito comercialmente, apresenta mais uma alternativa do emprego do bambu. O projeto de Marcelo Cadori surgiu em 2010 como tema para a monografia do seu curso de graduação (Tecnologia em Construção Naval)

Móveis

Móveis

Canoa

Painéis, elementos de decoração e objetos utilitários se somaram à utilização estrutural e mesclaram o conhecimento de várias áreas.

Em Baurú – SP a experiência acadêmica dos cursos de arquitetura e design está somando esforços para que uma comunidade de assentados do INCRA tenha mais uma forma de geração de renda. Orientados pelo engenheiro agrícola Marco Antonio dos Reis Pereira, co-autor do livro Bambu de Corpo e Alma e professor do Depto. de Engenharia Mecânica da UNESP/Bauru, esses três grupos de pessoas estão materializando um projeto de plantio e utilização do bambu para produção de artesanato. Ao mesmo tempo permite que estudantes de design usem o bambu no projeto de novas formas de objetos e, aos de arquitetura, projetar um galpão com estrutura de bambu onde estão instaladas as máquinas para cortar, lixar e confeccionar colheres, copos e outros objetos de bambu produzidos pelos assentados.

 

 

Completando: Citado como referencia por vários pesquisadores brasileiros, o colombiano Oscar Hidalgo Lopez, autor do livro: Bambu, uma dádiva dos deuses, nasceu numa casa feita de bambu numa região onde esse tipo de construção era comum e depois de se formar em arquitetura, dedicou sua vida à pesquisa do bambu como elemento estrutural. Tornou-se Consul Honorário da The World Bamboo Organization, (http://worldbamboo.net ) um grupo diversificado de pessoas, empresas, associações sem fins lucrativos, instituições e corporações de comércio que partilham um interesse comum pelo bambu e que se propõe a promover sua utilização em prol do meio ambiente e da economia.

A WBO promove cursos e eventos sobre o bambu em todo o mundo e já está preparando para 2015 a décima edição do Congresso Mundial de Bambu, ( World Bamboo Congress ) na Coreia do Sul. Ela também promove o dia mundial do bambu cujo objetivo também é difundir o potencial do bambu e suas inúmeras aplicações.