Jongo

O que você ouve não é o que você escuta 

 

            África, música, canto e dança sempre existiram juntos. Quando os portugueses chegaram ao Congo, no século XV, se surpreenderam ao encontrar uma civilização extremamente organizada e que acreditava que o seu dia a dia era comandado e ligado ao sobrenatural. O canto, a música e a dança muitas vezes substituíam a linguagem falada e faziam parte dos rituais de pedir o que precisavam e agradecer pelo que recebiam. Havia cantos para pedir chuva, para colheita e para a pesca além dos característicos das cerimônias religiosas e das festas de nascimento, puberdade, casamento, e morte de alguém. A vida na África era (e ainda é) vivida cantando e dançando.

 

            Quando guerreavam e eram feitos escravos por outros povos africanos, ainda podiam, na maioria dos casos, manter esse costume porque estavam no mesmo ambiente cultural que conservava preceitos ancestrais. Isso iria mudar quando os escravos começaram a ser levados para as Américas.

            Separados de amigos e parentes e jogados sozinhos nas plantações de cana de açúcar e na garimpagem de ouro e diamantes, as razões para cantar como na África deixavam de existir. Todavia, cantar dava força, ajudava a enfrentar o sofrimento e, de alguma forma, mantinha a identidade e as lembranças. Não havia mais razão para agradecer e talvez não adiantasse pedir. O canto dos homens e mulheres escravos passou então a ser uma forma de comunicação criptografada, que não usava apenas o dialeto, mas também uma metáfora com duplo sentido que só era compreensível entre eles.

            No século XIX, esse código metaforicamente cifrado ficou conhecido como fundamento e os cantos criados a partir daí, e que chegaram aos pontos do Jongo, às procissões das Congadas e até às rodas de Capoeira, chamados de vissungos

 Bananal - MAS_0502

 

 

Num refrão de ponto de Jongo o canto fala da esperança de recuperar as tradições perdidas

Cata a casca do coco sinhá      

Que a água vai voltar

 A casca do coco representa as pessoas separadas pela escravidão e a água é tudo o que foi perdido com isso.

 

Samba de Pareia

 

Na mesma linha, uma letra que saiu os pontos dos cultos afro brasileiros e que foi parar numa gravação de um conhecido grupo de samba, fala da casca de coco como uma referencia aos escravos

Vovó não quer casca de coco no terreiro,
Pra não lembrar do tempo do cativeiro.

 

Cacumbi

 

 

 

Numa roda de Capoeira, o cantador avisa a um incauto, que a mulher com quem ele vai jogar é habilidosa e perigosa.

Cuidado moço que essa fruta tem caroço !

 Rosário

E num outro canto, ele brinca com quem acabou de tomar uma rasteira

 O facão bateu embaixo…

A bananeira caiu !

Cai cai bananeira …

Bananal - MAS_0565 

E em outros cantos de Jongo

Fui no mato buscar vaca

A vaca não tinha teta

Mesmo assim bebi 10 litros

Do leite da vaca preta

A vaca representa a vida que segue a cada dia

A letra fala das adversidades da vida e das lições que delas tiramos para seguir em frente

Samba de Pareia

Carreiro novo

Que não sabe carrear

O carro tomba

O boi fica no lugar

Fala da importância de se ter experiência no que faz

O boi é mais experiente que o carreiro novo

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Na fazenda da Cachoeira

Tem cabrito tem boiada

Tem carneiro tem porcada

Urubu ta comendo foia

É um desabafo que fala da riqueza que existe na fazenda enquanto o negro ( urubu ) come folhas

Rosário

 

Ei ê lambá

Quero me acaba no sumido

 

É outro desabafo onde o negro, cansado da infelicidade e miséria ( lambá ) , pede a morte.

 

 Festa de São Benedito

 

 

 

Nem tudo é tão cifrado

Nos cantos de hoje, nem tudo é tão cifrado.

Mestre João Grande, um dos mais conhecidos capoeiristas ainda vivo, numa cantiga de roda, fala sem muito mistério da passagem de todos nós pela vida e do legado que deixamos.

 

Eu sou a fruta madura

Que cai do pé lentamente

Na queda larga semente

Que procura terra fresca

Prá ser fruta novamente

Festa de São Benedito

 

Falar, cantar e escrever em códigos metafóricos foi uma alternativa para driblar a opressão durante toda a história da humanidade.

Os bantus transformaram a alegria dos cantos entoados na África em formas de comunicação e desabafo. Elaboraram cantos que também serviam para concentrar forças e dar ritmo ao trabalho feito em gestos coletivos e repetidos.

Infelizmente, pouca coisa se tem registrada dessa riqueza cultural que se perpetuou na oralidade, e chegou até nós para ajudar a formar a enorme variedade musical que temos hoje.